Rota Leste Walk and Talk

Poucas vezes na minha vida tive contato com um conjunto de arte-arquitetura tão impactante e que tanto revela a alma de um autor-artista como o divino Wat Rong Khun, mais conhecido como White Temple, localizado nas proximidades de Chiang Rai – norte da Tailândia.

Apesar de todas as diferenças em estilo, forma e estrutura, a Sagrada Família em Barcelona, excepcional obra de Antoni Gaudí, me transportou para sentimentos parecidos com os que me arrebataram ao conhecer esse espaço de uma beleza branca infinita.  Esses 2 templos; um budista e outro cristão, transcendem o culto e fazem da fé um legado à arquitetura.

Os esforços para se chegar nesse templo-paraíso-fora-do-céu foram recompensados já no primeiro passo dentro do complexo branco. Branco que recorda a pureza de Buda. Ingressar na obra de Chalermchai Kositpipat foi como atravessar um portal para outra dimensão onde o céu, o inferno, as virtudes e intempéries humanas, o onírico e o lúdico, até nossas mazelas são reluzentemente alvas e ácidas. Acidez que desponta em vários pontos da obra em forma de crítica social, econômica ou política. A cor quando aparece, serve para sublinhar e aprofundar sentimentos do autor ou chamar atenção para algo relevante, como a única construção toda dourada do espaço chamada Golden Building. Ela nos recorda da ligação exacerbada do homem com o lado material da vida. Questiona as necessidades do TER antes do SER, nos lembra que o ouro não deveria ser uma conquista externa e sim interna. E para acentuar ainda mais o paradigma, acomoda justamente nesse local os banheiros do espaço.

Chalermchai, artista plástico de primeira grandeza no reino tailandês, criou com seus próprios recursos, esse espaço-mundo lotado de construções simbólicas e artísticas destinado a ser um lugar para meditação e aprendizado dos ensinamentos budistas. Ornado com requinte digno daqueles que exercem seu talento às máximas, o White Temple pede tempo e atenção. Os sentidos devem estar abertos para captar e entender os milhares de ícones espalhados não só pelas construções mas também pelos jardins ornamentais do complexo.

Depois de desvendar as construções e simbologias brancas somos levados para um mundo de cor, onde entendemos melhor as origens do autor e o fantástico mundo de sua mente brilhante. Essa é a galeria de arte, espaço que acomoda pinturas, gravuras e esculturas produzidas durante a carreira de Chalermchai Kositpipat. Ao contrário da monocromia vista ao ar livre, todas as obras da galeria são abundantemente coloridas, uma dualidade interessante que tem seu ponto comum no traço singular do artista.

Assim como a Sagrada Família, Chalermchai adota os princípios do projeto de Gaudí e faz da sua obra, uma obra infinita no tempo e espaço. O White Temple tem planos de expansão para décadas de trabalho, assim o que foi sonhado e idealizado pelo mestre, pode ser concluído por sua equipe, mesmo depois de sua morte. Os trabalhos de construção de novos espaços e reforma do que já foi feito correm em paralelo ao dia-a-dia do complexo. Obreiros, artistas e estagiários circulam junto às centenas de visitantes diários, fazendo com que o espaço nunca deixe de nascer e renascer. Em Maio desse ano algumas estruturas foram abaladas por um terremoto que o correu na região e agora mais do que nunca os trabalhos de reconstrução correm para salvar o que foi danificado.

O White Temple é uma obra de grandeza infinita, não só por aquilo que representa no aqui e agora, mas por todo o futuro que ainda será construído e reconstruído por muitas gerações.

Texto Luah Galvão

Fotos Danilo España

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