“Essa pergunta é o título da nossa nova matéria no portal Exame que compartilhamos aqui com vocês. A reflexão é sobre o que acontece quando não nos tornamos exatamente aquilo que um dia pensamos que seríamos… Boa leitura!”

Dentro de nós, existe uma parte que permanece a mesma e outra que se molda com o tempo?
Tenho a sensação de que muita gente está incomodada com quem acabou se tornando, mais do que isso, tem gente incomodada com quem deixou de ser. Comecei a perceber isso nas inúmeras conversas que tivemos com pessoas de diversos lugares na volta ao mundo. Continuo ouvindo o mesmo daqueles que perguntamos sobre motivação de vida, superação ou resiliência em outras viagens e também aqui no Brasil. A impressão se reforça nos papos entre amigos, depoimentos em redes sociais, cursos, workshops ou encontros que participamos.

Para mim, a origem desse incômodo é o abandono da própria essência, daquela parte que deveria permanecer a mesma por toda a vida. Eu traduzo essa essência como nossa criança interior ou nossos valores.
Ao mesmo tempo, acredito que há outra parte de nós que absorve o mundo ao nosso redor, se molda de acordo com os acontecimentos e experiências que vivemos.

Muito do incômodo com relação à quem nos tornamos, vem do não cumprimento das infindáveis e gigantescas expectativas que criamos sobre nós mesmos. Para agravar essa situação, de algumas gerações para cá, tem prevalecido socialmente a chamada “ditadura do sucesso”, e mais recentemente a “ditadura do propósito”. Ambas aumentando a pressão para que todos mostrem mais “resultados” e bradem aos quatro ventos a plena certeza de cada caminho escolhido.

Mas atingir o “sucesso” não é tarefa simples e alcançar todos esses “resultados”, apesar de tantas ferramentas e do fácil acesso às informações, também não. Está ficando cada dia mais claro que alcançá-los não é garantia de felicidade, realização ou bem estar.

Temos que nos atentar ao percorrer trajetos custosos demais em busca desses ideais. Quando os custos são nossa saúde, família, amizades ou atitudes que colocam em cheque nossos valores e a nossa essência é preciso ter cuidado e avaliar.

É difícil olhar para trás e notar uma distância enorme entre onde chegamos e o caminho ideal. Mas precisamos fazer algo para lidar com a sensação de ruptura, incômodo com quem nos tornamos ou de que nos falta algo.
Então que tal separarmos essência e experiências para ficar mais fácil de lidar com essas sensações?

Se nossa vida pudesse se comparar à uma casa, o alicerce seria nossa essência, a criança interior ou nossos valores. Isto é, a base, algo praticamente imutável… já os tijolos e telhas seriam as experiências que vivenciamos. Para termos uma bela casa é necessário organizar tijolos e telhas. É preciso saber que cada coisa tem seu lugar, e que se não organizarmos e ressignificarmos evento por evento, não teremos uma bela casa mas sim uma pilha de entulho.

Se você deixou de ser quem era, para reencontrar a sua essência, um ótimo caminho é escutar mais sua criança interior e respeitá-la. Dar “sim para o sim” e “não para o não”, cumprindo o que seus valores exigem para se manter íntegro. Com isso, o sentimento de gratidão só tende a crescer e a confiança em si mesmo é fortalecida.

Sobre as experiências, é crucial ter bom senso e cuidado ao interpretar cada evento que vivencia. Só filtrando e analisando cada um desses eventos, é possível compor um repertório que o ajuda a caminhar e evitar a repetição de certos erros. Uma experiência negativa por exemplo, pode significar um trauma para uns ou um grande aprendizado para outros, depende apenas de como encaramos a situação.

Saber que muita gente de várias partes do mundo sente o mesmo, é de certa forma um alívio para esse incômodo, pois afinal estamos todos aqui para evoluir e aprender. A essência realmente precisa ser mantida, respeitada… pois é isso que constrói a nossa unicidade. As experiências recheiam e colorem nossas vidas, dão dinamismo e fornecem os desafios que acabam sendo nosso maior combustível. Então que tal aproveitá-las como histórias que nos ensinam ou como passos firmes da nossa evolução? É como aquela frase que diz: “O passado não deve ser uma rede, mas sim um trampolim!”.

Por Danilo España

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