Em um belo dia de sol, depois de vários dias frios e nublados – resultado do fenômeno El Niño, seguimos rumo à Amantaní; uma das ilhas do lago Titicaca onde a cultura do povo nativo está mais preservada.

Não vamos mais falar das Ilhas Flutuantes, tema de vários posts anteriores, afinal Amantaní é uma ilha de verdade e um dos locais preferidos no Perú para o chamado “turismo vivencial”. Navegamos quase 3 horas pelas águas azul-mar do Titicaca em busca de uma nova experiência. Nosso pacote incluía a estadia na casa de uma das famílias da comunidade, assim poderíamos ver, sentir e participar um pouco do modus-vivendi e da organização de mais esse grupo de cultura preservada.

Chegamos por volta das 2:30 da tarde, a fome já batia forte. Nossa embarcação foi atracada em um mini portinho, do qual saía um longo e íngreme caminho colina acima. Apesar do friozinho da região do Titicaca – esse imenso lago de degelo que fica 3821 metros acima do nível do mar, o sol estava escaldante queimando nossa pele.

Altitude + sol de rachar + subida íngreme + fome, componentes nada interessantes pra serem misturados, mas o visual amenizava a situação… o lugar parecia ter saído de um livro.

A ilha, extremamente bem cuidada, é dona de uma natureza linda, jardins floridos e viçosos, terraços de cultivo seculares, ovelhas guiadas por suas pastoras trajando vestimentas típicas, templos Incas e casas coloridas com grandes terrenos espalhadas pelo relevo. E para fechar com chave de ouro, parte das cordilheiras e seus picos nevados emolduravam o cenário na outra margem do Titicaca. Que visual maravilhoso!

Fazia tempo que não sentia uma paz de espírito tão grande. Respirei fundo aquele ar puro e senti uma energia revigorante. O grupo da nossa embarcação aos poucos foi chegando no centro da comunidade. Representantes das famílias que iriam nos hospedar já estavam aguardando. Verônica, a matriarca da família, nos recebeu com um sorriso tímido e pediu que a seguíssemos até sua casa.

A economia de Amantaní gira em torno da agricultura e do turismo e apesar da renda ser bastante apertada, todos vivem com muita dignidade. As construções, mesmo simples, são bem cuidadas e todas tem uma área de cultivo ao lado. Como ficam muito longe do continente, a ilha precisa contar com sua própria produção para alguns ítens do dia-a-dia.

Ficamos junto com mais um casal super simpático: Roberto e Yennyfert, ele da região de Lima e ela de Cusco, ambos executivos de uma mesma multinacional. Estavam de férias na região.

Verônica distribuiu cada casal em um quarto, construídos para receber turistas ao longo do ano e ajudar na renda familiar. Assim que acomodamos nossas mochilas, Leandro – o simpático patriarca, nos chamou para o almoço. Sentamos os 4 em uma mesinha ao lado da cozinha, ainda muito rudimentar, construída no chão de barro batido. Verônica agachada atiçava a lenha do fogão terminando os últimos preparativos. Nos serviram primeiro de sopa de Quinua – super tradicional no Perú. Estava divina, temperada com ervas locais colhidas na horta. Em seguida recebemos um prato com arroz, batatas cozidas e um queijo delicioso na chapa. Para encerrar chá de muña, tradicional para a digestão.

Ao longo do almoço muitas conversas com a família e com nossos novos amigos peruanos. Foram momentos de comunhão e de muitas perguntas de todos os lados. Os 3 casais, vindos de lugares diferentes, de culturas diferentes, estavam ávidos pela troca real. Engraçado é que depois de meia hora parecia que todos já se conheciam há tempos e as diferenças pouco a pouco foram sumindo. Percebi um fato interessante… nós 4 da cidade grande estávamos fascinados com a paz, a natureza e a hamonia do lugar, questionando nossas vidas nas grandes capitais e em meio ao caos urbano. O casal de Amantaní, tinha quetionamentos reversos, indagavam sua vida pacata, longe de tudo e sem as facilidades da cidade grande. Tive a nítida sensação de que sempre projetamos a felicidade naquilo que não temos. A tendência humana é mesmo achar que o jardim do outro é sempre mais verde. Será falta de gratidão por nossos entornos ou uma busca eterna pelo novo e movente? Outros pontos de afinidade foram sendo costurados ao longo do papo.

Essa experiência vivencial me mostrou mais uma vez que no fundo no fundo, somos mesmo todos um e que o ser humano, independente de origem, credo e cultura tem as mesmas e eternas indagações.

Nossa estadia em Amantaní foi super interessante e segue em outros posts.

Dica: para aqueles que forem à Puno e ao Titicaca recomendamos demais a experiência em Amantaní. É possível fechar pacotes de 2 dias e uma noite, incluindo as ilhas flutuantes, Amantaní e a Ilha de Taquille (outro destino super bacana pelo qual passamos). Tudo isso pode ser organizado diretamente nas agências em Puno ou nos hotéis e pousadas da região.

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