Depois da distribuição das pessoas do grupo pelas casas dos locais que estavam nos recebendo, e do generoso almoço que contamos em detalhes no post anterior sobre a pequena ilha, fomos convidados pelo guia a nos encontrar novamente. A ideia era fazer uma caminhada morro acima para conhecer mais sobre como é a vida no local e visitar o templo do sol, localizado bem no topo da maior montanha de Amantaní.

Se com o ar rarefeito naquela altitude já ficávamos ofegantes apenas em levantar da cadeira, imagine só caminhar até o topo de uma grande montanha. Mas não estávamos lá para descansar sim conhecer o máximo possível.

Nossa anfitriã Verônica colocou um boné na cabeça com suas enormes tranças para fora e nos levou ao encontro do grupo. Esperamos um pouco até que todos estivessem reunidos e logo percebemos que alguns tinham optado em não enfrentar a difícil subida. Com o grupo incompleto, iniciamos então a íngreme jornada que passaria por infinitas paisagens lindas mais e mais lindas a cada passo. Ovelhas passeavam pelos terrenos como se estivessem ali apenas para compor a paisagem, as casas eram bastante simples, mas extremamante bem cuidadas, combinando com seus terrenos cobertos de plantações dos produtos que são a base da alimentação local. Vimos diversas casas, apreciamos os inúmeros terraços de cultivo que circundam a parte mais habitada e paramos em alguns pontos para encher os olhos com a vista espetacular.

De pouco em pouco tempo tínhamos que fazer pausas para retomar o fôlego e aproveitávamos para escutar as explicações do guia. Ele nos contava detalhes de como vivem essas pessoas, surpreendentemente da mesma maneira que viviam séculos atrás. Nessas paradas, senhoras e senhores de idade bastante avançada passavam por nós como se fossem meninos jovens e saudáveis, carregando ferramentas, sementes, adubo, tudo mais que precisavam nos tecidos que amarram nas costas formando uma espécie de mochila. Perguntamos ao guia quantos quilos costumam levar e ele nos disse que a quantidade varia de acordo com a carga. Muitas mulheres levam alí seus bebês e outras carregam ainda uma verdadeira loja, com gorros, luvas, blusas, mantas, meias e artesanatos, etc. Tudo feito com lã de alpaca, ovelha ou lhama.

Conforme íamos subindo, algumas mulheres que andavam bem mais rápido que nós, nos esperavam alguns metros à frente com “sua loja montada”, ou seja, desamarravam o tecido que estava ao redor do corpo e o abriam no chão exibindo os produtos disponíveis para venda. Após a passagem do grupo fechavam tudo e nos ultrapassavam novamente para que tivessem outra chance de vender algo. Talvez com um segundo olhar seus produtos despertariam a vontade de comprar nos turistas ou como uma forma de recompensa ao seu evidente esforço acabariam vendendo algo na passagem do grupo.

Depois de muitas paradas finalmente chegamos o templo do sol, quadrangular, todo feito de pedras bem no topo da montanha. Mais uma vez ficamos extasiados com a construção, dessa vez não pela sua magnitude, mas pelo visual ao redor e por terem levado tantas pedras ao alto daquele morro. Sentimos na pele o esforço necessário para levar nossos próprios corpos até lá e imaginamos como seria levar pesadas pedras…

Isso me fez pensar que os locais escolhidos para os templos em todo o Perú, muitas vezes no alto de morros ou enormes montanhas, talvez queriam representar e marcar exatamente esse esforço. O esforço, a dedicação e o empenho daqueles que querem ser melhores, daqueles sabem que querem evoluir, daqueles que possuem uma crença viva, seja ela qual for. Pensei durante um tempo que essas obras também podiam representar uma espécie de sofrimento, mas na verdade simbolizam a gratidão ao divino por terem força e inspiração para a concretização. Essas incríveis construções Incas mostram como o homem é capaz de construir o que sonha por mais difícil ou impossível que pareça. Mostram que se dedicar vale a pena para ver uma obra concluída seja ela relacionada ao divino ou não.

Subir no alto daquela montanha e visitar o templo do sol foi vislumbrar o que é resiliência. E que quando há um objetivo maior a ser cumprido somos mesmo capazes de resistir à duras adversidades.

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