O Titicaca é o lago navegável mais alto do mundo, fica a quase 4000 metros de altitude e está rodeado de sítios arqueológicos e lugares sagrados. É tão grande que mais parece um mar…

No post anterior comentamos curiosidades sobre o povo que vive nas ilhas flutuantes de Uros. Mas descobrimos tanta coisa, que não coube em um post só! Visitar esse lago é deslumbrante, mas como é viver em um lugar assim?

É estonteante ver aquelas ilhas douradas no meio do imenso e profundo lago (são mais de 190 km de extensão e a profundidade em alguns pontos chega a 280 m). Não tivemos como evitar que várias perguntas começassem a brotar nas nossas mentes, dentre elas: será que eles tem luz elétrica? Como sobrevivem ao forte inverno da região? Como fazem para ir ao banheiro? E quando de um médico? As crianças são ensinadas pelos pais ou vão à uma escola?

Começaram nos contando que o primeiro presidente do Perú a visitá-los foi Alberto Fujimori (que governou de 1990 à 2000) e logo se convenceu da necessidade de energia elétrica. Mas como levar energia à uma porção de ilhas flutuantes? A solução viável que encontrou foi comprar painéis solares e distribuir entre os povoados. Eles são usados até hoje e apesar de não ser uma eletricidade abundante, serviu para terem acesso à comunicação e um pouco iluminação durante a noite.

Quando visitamos as ilhas, o clima estava super agradável, mas o inverno da região assusta, as temperaturas podem chegar a 18º C negativos. Como fazem para sobreviver a um frio desses? Para responder essa pergunta, é importante saber que durante todo o ano a temperatura da água do lago não varia muito, fica em torno dos 10º C. Isso faz com que nos dias gélidos o lago absorva parte desse frio. Como as casas estão super próximas da água e toda a estrutura é feita de totora, (que também ajuda na manutenção da temperatura) criam-se microclimas. Ou seja, as ilhas podem ser habitadas até mesmo nas épocas mais frias no altiplano peruano. E o mais incrível é que a temperatura no interior das ilhas não baixa mais do que 2 graus positivos, enquanto no continente próximo todos estão congelando com – 18 graus.

Aos poucos fomos nos surpreendendo às soluções e estratégias que esse povo encontrou para sobreviver em um local tão peculiar. E falando em peculiaridade, como eles fazem para ir ao banheiro? Descobrimos que eles não vão “ao banheiro”, pois não existem nas ilhas. Buscam um local mais reservado e fazem suas necessidades direto na água.

Mas isso esbarra em um problema: o lago é único local de onde podem captar água para beber e cozinhar! E a salvadora da pátria nesse caso é mais uma vez a totora, que serve como adstringente. Os Uros passaram grande parte do dia comendo pedacinhos da base do caule da planta, uma parte esbranquiçada que mais parece o caule do alho poró. Ela limpa o organismo impedindo que os moradores tenham problemas estomacais ou de intestino, entre outras benesses para a saúde. A totora evita inclusive a cólera. Essa foi uma descoberta e tanto, pois dependendo da ilha, a travessia até terra firme pode levar mais de 2 horas, uma longa viagem para alguém que não está se sentido bem.

E a educação, como fica com tantas ilhas espalhadas? Há 20 anos as crianças começaram a ter acesso ao ensino. Pequenas embarcações passam diariamente reunindo crianças que estão no ensino básico e as levam para escolas montadas nas próprias ilhas flutuantes. O que continua sendo muito difícil é fazer o secundário e a Universidade, pois essas instituições só estão em terra firme. O custo é enorme para manter os jovens na cidade, mas muitas famílias comprometem todo seu orçamento, investindo na educação dos filhos. Em geral, uma vez que os jovens saem das ilhas para estudar, não querem mais voltar. Acabam conseguindo emprego na cidade e por lá ficam, mais tarde constituindo família. O êxodo é grande e não sabemos ao certo quanto tempo mais Uros legítimos viverão em suas casas flutuantes. Nosso guia afirmou que os Uros não ficam doentes nunca e atribuiu essa benesse à totora…

Como comentamos no post anterior, em algumas ilhas os Uros já não moram mais. Passam o dia trabalhando com o turismo e depois retornam para suas casas em Puno ou nos arredores do lago. Talvez em um futuro próximo, as ilhas sejam ocupadas de dia apenas por pessoas remuneradas simulando população nativa, para que os turistas vislumbrem como foi essa cultura um dia. O mundo está mudando rapidamente e as culturas mais ancestrais começam a enfraquecer frente à globalização. Como tudo existem aspectos positivos e negativos à respeito do assunto, mas independente da opinião de cada um, o fato é que não resta muito mais tempo para se vivenciar essas culturas como realmente são… ou, como eram…

Dica 1: a região de Puno e do lago Titicaca é maravilhosa, vale muito a pena ser acrescentada nas viagens ao Perú. No passeio para ilhas flutuantes, vale fazer uma pesquisa e escolher um tour que não leve nas mais turísticas e sim nas ilhas ainda preservadas. É muito bacana visitar ilhas onde as pessoas realmente vivem! A interação é mais genuína e a experiência se torna muito mais rica!

Dica 2: IMPORTANTE – em muitas das ilhas, os Uros vão insistir para que turistas provem a totora mas, ouvimos vários relatos de que eles soltam imediatamente o intestino de quem não está acostumado. Portanto, melhor não correr o risco.

E o assunto das ilhas ainda não para por aqui! Já já tem mais!

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