Um peregrino especial… O nome dele Charlie, 68 anos, nascido na Irlanda, criado na Escócia, hoje mora na Austrália. Um cara enigmático, olhar profundo…

A primeira vez que o vi, estávamos chegando em Zariquiegui, uma pequena vila aos pés do Alto do Perdão. O dia estava quente e nossa última etapa havia sido toda de subida. Precisávamos parar para comer algo e nos refrescar. Encontramos um pequeno e simpático café, deixamos as mochilas em uma sombra e quando levanto os olhos vejo do outro lado da rua a figura de um homem bem alto, vestido como um personagem dos filmes antigos de Clint Eastwood. Parecia alguém fora de nossa época. Ele estava ajeitando sua mochila – era um peregrino.

O cenário bege e ocre do vilarejo, abraçado por um calor escaldante e aquele personagem meio fora de época me “chamaram” para uma foto. Cliquei e atravessei a rua para comprar algo para comer.

Com um pedaço de tortilla e um pacotinho de cerejas nas mãos saio do café e quando vejo, o homem estava se sentando bem ao lado das nossas mochilas. Me aproximei, perguntei seu nome e lhe ofereci cerejas, que ele aceitou como uma criança que há muito não via doces… Estavam deliciosas!

Charlie peregrinava sozinho. Era viúvo. Perguntei porque tinha partido de tão longe para fazer o Caminho, ele mudou o tom da prosa, ficou mais sério e olhando fundo nos meus olhos respondeu: “I recived a call from God…” (Recebi um chamado de Deus). Apontou pra cima, me olhou mais uma vez profundamente e trocou de assunto.

Conversamos mais algumas amenidades sobre o Brasil e a Austrália, e em seguida se despediu para voltar ao Caminho. Levava nas costas uma enorme mochila e nas mãos uma sacola que parecia pesadíssima – pensamos que podia estar carregando um santo ou algo em forma de promessa. E começou a subir um dos pontos mais altos do Caminho com todo esse peso e sem um cajado pra ajudar.

Neste dia cruzamos Charlie algumas vezes, sempre em alguma área de descanso onde ele parecia fazer uma oração. Talvez sua fé pudesse explicar como em sua idade e com tanto peso conseguia caminhar mais rápido do que nós.

E nesse movimento de aparecer e desaparecer fomos nos encontrando até o último ponto da nossa etapa daquele dia. Quando nos despedimos, ele nos convidou para tomar algo. Mal sentamos e ele já estava com uma cerveja para cada um de nós. Retribuímos escrevendo a tradução de alguns pratos do inglês para o espanhol, pois Charlie nos confessou que estava com dificuldade de pedir as refeições ao longo da viagem.

Não sei explicar as razões, mas mesmo sem tanto contato, ele foi uma figura que nos marcou muito, não sei se por sua força, sua determinação, sua fé ou seu “q” de mistério. É como se ele fosse alguém de uma outra época nos encontrando agora. Nos deu vontade de cuidar dele, acompanhar, estar ao lado, mas sabemos que cada um aqui tem o sua jornada…

No Caminho sempre voltamos à encontrar peregrinos, mas o Charlie nunca mais vimos. Ás vezes nos perguntamos se ele realmente existiu ou se nossa cabeça o criou. Bom termos as fotos para saber que Charlie não foi um sonho…

O Caminho também é um sonho e o sonho também é o Caminho… Cada parte desse sonho nos ajuda a criar uma nova realidade.

Ultreya!!

No Comment

Comments are closed.

You may also like