Walk and Talk | O que te motiva?

“Love it, Change it or Leave it”…

Oliver Dittmann em entrevista Walk and Talk

A próxima história inspiradora se passa na Guatemala, mais precisamente na Ilha de Flores, um lugar que é tão pequeno quanto extraordinário. Já declarei meu amor incondicional pela Guatemala várias vezes ao longo da jornada e só pra não perder o hábito, aqui fica mais uma sincera declaração.

Era a primeira vez que pisávamos em Flores, vínhamos subindo o país desde a Cidade da Guatemala. Chegamos na Ilha já era noite, e o calor enorme. Casados, comemos algo rápido e cama. No dia seguinte saímos para explorar o lugar que de tão pequeno podia ser visto em 1 hora de caminhada. Bastou  uma volta completa na Ilha e imediatamente estávamos fisgados pela energia e alegria vindas das pequenas ruas e vielas de paralelepípedo sobre as quais muita história já havia se passado. Só pra contextualizar, Flores, ou Taysal como era chamada no tempo de ocupação Maia – foi a a última cidade dessa civilização a se render ao domínio espanhol. Estudos arqueológicos mostram que a região foi ocupada desde 300 a.c., pra ver que realmente muito se passou por ali. Pra nós era fantástico estar no território da “resistência” do mundo Maia.

Decidimos explorar com mais atenção os casarios coloridos e cada canto da ilha. Quando a fome bateu fomos em busca de um lugar aprazível para afastar o calor e saciar nossa fome. Escolhemos no La Villa Del Chef, um restaurante com mesinhas num terraço cheio de plantas e uma vista sensacional do Lago Petén Itza. Assim que o menu chegou vimos na primeira página uma carta de boas vindas dos anfitriões: 2 irmãos da Alemanha, que gentilmente convidavam para apreciar o lugar e a comida caseira por eles produzida, em seguida contavam que uma parte do valor gasto no restaurante era destinado à atividades sociais e educacionais que coordenavam junto às crianças da região.

La Villa del Chef Flores Guatemala

Comemos maravilhosamente bem e ao final do almoço pedimos para conhecer os donos do lugar. Depois de um tempinho chega à nossa mesa Oliver Dittmann que com um sorriso largo aceita nosso convite para um bate papo. No momento ainda não sabíamos, mas aquele alemão de 32 anos nascido em Munique, viria a ser um dos grandes amigos que fizemos ao longo da nossa jornada. E a história de Oliver começa mais ou menos assim…

Na Alemanha quando fez 18 anos precisou decidir: ir para o exército ou para Cruz Vermelha. Decidiu pela segunda opção, auxiliando e dando suporte para crianças e adultos da terceira idade sobreviventes de guerras. Lembra-se bem de um ex professor de matemática que teve suas pernas congeladas durante a segunda guerra mundial, no conhecido inverno de Stalingrado em 1942. Dava assistência psicológica e ajudava no dia a dia com banhos, alimentação e passeios… até que em um desses passeios se deparou com uma criança paralizada em uma cadeira de rodas. Nesse instante começou a repensar a vida e o sentido de LIBERDADE, coincidentemente em uma época em que vivia de um modo bastante superficial, dando importância para coisas sem sentido. Essa foi a primeira lembrança de Oliver questionando sua “vida x liberdade”.

Começou sua trajetória profissional trabalhando 12 horas por dia, 6 dias por semana no departamento de cargas de um aeroporto, depois foi para uma grande Farmacêutica, mas mesmo prosperando, seus olhos estavam voltados para fora da Alemanha. Começou a enviar currículos até que foi chamado em uma empresa nos EUA. Na mesma semana em que Oliver saiu do país, Nik – seu irmão 10 anos mais velho, também decidiu se aventurar rumo à América Latina. Foi parar na Guatemala e quando conheceu Flores, decidiu investir em um restaurante.
Nas primeiras férias de seu trabalho nos EUA, Oliver foi visitar Nik na Guatemala. Contou que foi indiscritível a sensação que sentiu quando chegou na região de Flores. Curtiu muito estar ali, parecia que havia encontrado “seu lugar” no mundo. Voltou ao trabalho nos EUA mas não conseguia tirar a Guatemala 1 dia sequer da cabeça. Na época pensou que seria uma sensação passageira, mas durante 2 anos seus pensamentos sempre levavam sua alma de volta para lá.

E como a vida sempre nos prega peças quando queremos de fato uma mudança relevante em nossas vidas, um dia Oliver recebe um telefonema de seu irmão perguntando se ele gostaria de assumir a gerência do restaurante. Nik nessa época precisava de um descanso e tinha planos para um novo negócio na ilha, seguiria como investidor do restaurante, mas queria sair da operação do negócio. Nesse momento pensou novamente na liberdade e olhou para seu futuro: como estaria aos 50 anos de idade?! Teria levado a vida que queria?! Quais seriam seus feitos?! Decidiu seguir a vontade de sua alma: partiu para Guatemala! Quando ainda morava na Alemanha, tinha um apartamento super arrumado e com tudo que se tem direito, vendeu tudo para ir aos EUA. Agora, com a vida refeita nos EUA, vendia tudo mais uma vez para abraçar seu futuro na América Central.

Walk and Talk na Guatemala

Mudou, aprendeu o espanhol, adaptou-se à cultura local e à pouca estrutura do pequeno lugar. Super organizado, como todo bom alemão, estudou minuciosamente o “mercado” que estava prestes à entrar para que pudesse fazer de La Villa del Chef, um lugar especial. O restaurante foi totalmente remodelado e faz 5 anos está sob seu comando. Lá Oliver conseguiu desenvolver vários dos seus talentos: empreender, conhecer e conversar com pessoas e servir. E não parou sua vida na confecção de pratos artesanais, na busca da excelência e no diálogo com pessoas de todo o mundo que diariamente passam em seu restaurante. Decidiu, junto com seu irmão Nik, contribuir socialmente com a região que elegeram como sua casa.
Um dia Oliver viu uma criança ser atropelada enquanto brincava nas ruas de Flores, depois soube de mais uma… Ele e Nik perceberam que as crianças da região não tinham espaço para brincar. Notaram também a carência da Guatemala por uma alimentação saudável. Foi aí que os projetos de Oliver  e Nik começaram: investiram parte de suas finanças para montar uma praça segura para a criançada e em seguida montaram um projeto ligado à alimentação infantil nas escolas mais carentes, criaram também o “Dia de Aventura” – um day-off cheio de diversão para os órfãos da comunidade. Oliver casou-se com uma guatemalteca nutricionista, um casamento perfeito para seguir adiante com seus planos. Juntos tem 2 filhos e muito o que fazer. Compraram recentemente uma porção de terra onde pretendem plantar abacate, mamão e mais 1000 pés de Ramón – uma árvore bastante cultivada no mundo Maia, cuja semente é super nutritiva – à partir dela se produz uma farinha mais nutritiva do que o milho e o feijão. Com essa produção pretendem ajudar no combate à desnutrição de sua região. Seus olhos sempre foram atentos para as necessidades dos mais carentes, quando o conhecemos, ele e Nik tinham acabado de doar um fogão para um orfanato que não podia aquecer comida para as crianças.

Oliver trabalha muito mas afirma que desde que chegou à Flores não teve um dia “boring” (chato). É um otimista de carteirinha e ama o que hoje faz. “Minha vida é simples mas tenho tudo o que necessito para ser feliz” e conta a fórmula para felicidade que segue com fervor: “Love it, Change it or Leave it” (Ame, mude ou deixe). Celebra a vida todos os dias parando para assitir o sol se pôr na frente de seu restaurante. “Cada dia assisto um espetáculo diferente e fotografo o momento para minha coleção.” Sempre acreditou que ao fazermos algo de bom para o próximo, a lei da atração dá uma mãozinha de volta.

Walk and Talk em Flores Guatemala

E pra finalizar a matéria, antes que vire um livro rsrsrs, aqui vai mais uma das lições que nosso amigo alemão: “Sempre me motivo a acreditar nos meus sonhos. Se você acredita, é capaz de fazer.” Ficam aí as palavras de quem sempre buscou sua liberdade e a encontrou sonhando e fazendo, fazendo e sonhando; numa bela ciranda da vida. Temos muito orgulho em ter conhecido esse cara…

Luah Galvão em Flores na Guatemala

La Villa Del Chef é sem dúvida uma das nossas Dicas de Viajante

Por Luah Galvão

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Dia de Aventura – crianças almoçando no La Villa Del Chef (foto arquivo)

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Dia de Aventura – crianças almoçando no La Villa Del Chef (foto arquivo)

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