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Aprendendo a ler a cultura dos outros

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Por que culturas distintas nos geram estranhamento?! O não usual sempre traz curiosidade, espanto e enche nossas cabeças de perguntas. Uns estão mais preparados e se entregam ao novo de peito aberto, outros não fazem a menor idéia de como lidar com ele. Somos mestres em pré-julgar e tecer considerações sobre tudo aquilo que não conhecemos ou entendemos. O fato é que olhar para o diverso nos provoca involuntariamente faíscas de curiosidade. Estamos acostumados a usar o preconceito como desculpa para o nosso medo, nossa inadaptabilidade, nossa preguiça em conhecer o outro. E assim seguimos caminhando e cantando com nossas certezas.

Cair no mundo é um grande desafio. Nossos pré-conceitos e conceitos são colocados à prova todo minuto. Esses mais de 2 anos na estrada nos fizeram refletir e compreender que é extamente na diversidade que está a maravilha da vida, a surpresa e o aprendizado.

Dos ritos Maoris aos ladyboys tailandeses, convido vocês para uma viagem ao redor dessa diversidade e da quebra de paradigmas.

Na Nova Zelândia, comecinho da viagem, tivemos nosso primeiro UAU!!! Decidimos pisar em solo neozolandês justamente para entender melhor a cultura Maori que sempre nos bateu forte. Assim que entramos no aeroporto atravessamos um alto portal, lindíssimo e imponente de madeira talhada com a arte e os simbolismos Maoris, seguidos de algumas máscaras e objetos incríveis.

Portal Maori no interior do museu de Auckland

Portal Maori no interior do museu de Auckland

UAU!!! Tínhamos mesmo pisado na terra dos guerreiros de cabelos escuros e corpos tatuados. Pois bem, os Maoris, raça pela qual sentimos um grande orgulho, tem alguns costumes pitorescos, os quais pelo meu palpite, ajudaram na mantenutenção dessa cultura frente ao seu colonizador, justamente o contrário do que aconteceu com os Aborígenes na Austrália (escrevemos um post bacana sobre isso). Antes de seguir bacana assistir esse vídeo:

Os Maoris tem um DNA guerreiro e o que foi mostrado acima é exatamente o cântico de guerra tradicional conhecido como Haka, que foi incorporado para iniciar as partidas de Rugby. Não importa qual seja o time enfrentado ou campeonato, essa expressão é tradição e ponto. E os oponentes tem que segurar a onda sem rir, sem zombar, sem um pio, pois qualquer dessas coisas que sejam feitas simbolizam uma enorme falta de respeito. Como deu pra ver alguns jogadores tem traços Maoris, mas não é isso que importa para que o grito de guerra seja evocado. O time todo incorpora a tradição e só quando o rito chega ao fim a partida pode ter início.

Walk and Talk museu de Auckland

Nesse ritual deu pra ver muitos dos jogadores mostrando a língua para os adversários, gesto que na nossa cultura seria extremamente desrespeitoso, mas pra eles a conotação é outra – faz parte do preparo para a “luta”. Era através da distorção do rosto e das feições que os antigos Maoris assustavam os adversários nas batalhas; como se seus rostos virassem carrancas para amedrontar. Pra ver que a gente tem primeiro que entender a cultura pra depois se manifestar …

Depois veio a Tailândia trazendo à tona o terceiro sexo. Os ladyboys, como são conhecidos os meninos que optaram por ser meninas, estão totalmente inseridos na sociedade sendo super respeitados. Ao contrário do que a gente imagina os ladyboys  não se vestem como nossos travestis e não fazem parte massiva do mundo underground, salvo algumas exceções. Eles, ou melhor – elas, estão mais para as delicadas geishas. Vestem-se como mulheres, gesticulam como as mesmas e o melhor, são conhecidas como profissionais de mão cheia, destacando-se nas mais diversas áreas. De gerentes de restaurantes e hotéis finos, passando por aeromoças de grandes Cias do país, hospitais e donas de seus próprios negócios, todos os setores tem os ladyboys ocupando seus espaços. Demoramos para perceber essas “mulheres”, pois muitas vezes só o tom de voz ou alguma sutileza acusa ser aquela gentil senhorita um ladyboy. Não existe preconceito por parte da população, entre eles tá tudo certo!!! A primeira vez que que nos deparamos com a atendimento feito pelo terceiro sexo estranhamos, mas foi compreender mais uma vez a cultura local que relaxamos, até porque elas atendem super bem. Aqui já fica uma dica pra quem viajar para a Tailândia: vá de mente aberta pois os ladyboys vão estar onde você menos imagina, e trate–os como trataria qualquer funcionária 100% mulher.

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Ladyboy – Imagem Internet

Aproveitando que estamos na Tailândia, bacana dar uma olhada na matéria que escrevemos sobre a tribo das mulheres pescoço de girafa, mais uma cultura à ser desvendada.

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Pra terminar mais um exemplo interessante, na Indonésia todo mundo come com as mãos. Literalmente!! Não tem essa de garfinhos, colherzinhas e faquinhas. O hábito é pegar com as mãos porções do tradicional “Sticky Rice” que serve exatamente pra grudar – como o nome já diz, tudo o que estiver solto no prato e depois levar para boca. Isso inclui os molhos, que acabam promovendo uma lambança. Ao final da refeição todos os dedos lambuzados passam por uma limpeza orgânica que se encerra com o barulhinho de uma lambida. Ah, e as afiadas unhas dos dedos mindinhos servem como palitos para tirar eventuais restinhos de comida. Todo o processo de limpeza é feito na mais santa paz, na frente de quem for. Mesmo não querendo participar da tradição local, na Indonésia você vai com certeza se deparar com esse hábito e é bom não ficar encarando como se eles fossem os mau educados. Pra eles os estranhos somos nós, que além de precisarmos de talheres ainda temos muito mais louça pra lavar.

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Sticky Rice – Foto Internet

Achei interessante dar alguns exemplos ilustrando como são as culturas ao redor desse imenso planeta e como é impossível fazer quaisquer pré-julgamentos usando apenas nossa ótica. Pra fazer uma imersão de verdade em outras sociedades tudo se inicia pelo respeito, a tolerância e o olhar atento ao aprendizado que a troca cultural sempre nos garante.

Por Luah Galvão
Fotos Dan España

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