Walk and Talk | O que te motiva?

A gente não precisa amar como os outros amam

A gente não precisa se encaixar no formato de relação que os outros acham que é o certo. Amor é Amor sempre que vivido com verdade, e quando isso acontece, ele pode até desconhecer os limites de tempo e espaço. Essa umas das lições que aprendemos com Sheillah, personagem-querida da nossa próxima história.

Recentemente tivemos a felicidade de viajar para Aruba e Curaçao, ilhas caribenhas que na verdade, são países autônomos pertencentes à coroa Holandesa. As duas são lindas e super diferentes entre si…

Aruba é pequena, praias longas, mar transparente, areia branca fininha, muitos coqueiros, tranquilidade e segurança total; o perfeito paraíso dos sonhos no Caribe. Além desse pacote convidativo é também o hotspot dos esportes aquáticos. A ilha tem ocupação recente e um jeitão bem americanizado atraindo gente do mundo todo, principalmente os próprios americanos, muitos dos quais tem sua segunda casa por lá.

Curaçao, palco da nossa próxima história, é a ilha vizinha e tem uma atmosfera totalmente diferente. Recheada de construções coloniais coloridas, tem um ar mais europeu. Foi descoberta em 1499 pelos espanhóis e em 1634 foi proclamada como parte dos Países Baixos. Curaçao é o parque aquático dos holandeses, tem praias menorzinhas com pouca faixa de areia e muitos pontos incríveis para mergulho. A cultura por lá é vibrante, mistura da cultura crioula com a européia em ritmo caribenho – uma bela alquimia. O mix é tão grande que os locais falam pelo menos 4 idiomas: holandês, inglês, espanhol e papiamento (língua oficial de Curaçao e Aruba). Como o papiamento tem palavras muito similares ao português, os islenhos também conseguem “pescar” muitas das nossas palavras.

E foi em meio à essa miscelânea cultural que em uma ensolarada manhã, alugando um carro para conhecer melhor a ilha, despretenciosamente conhecemos Sheillah.

Pra começar, é uma delícia escrever sobre pessoas transbordantes de vida e ela é assim! No alto dos seus 70 anos já fez muito, fez bonito em uma trajetória vivida com entusiasmo. É tão dinâmica que apesar de aposentada, resolveu seguir trabalhando meio período em uma agência de turismo, onde manda super bem no atendimento. Sheillah já foi guia turística – ainda faz bicos quando tem tempo, guiou limousine, cantou em diversos concursos de música do país – venceu alguns deles, é espiritualista, ama dançar e é super, super, super organizada. Casada, 2 filhos, alguns netos. Sua filha Ruela mora na Ilha, o filho Richard na Holanda.

Em nosso primeiro contato, o papo começou com dicas turísticas da Ilha e rapidamente passou para filosofia de vida, felicidade e amor. Quando vi já estávamos conversando por mais de 40 minutos e uma fila tinha se formado na agência sem que eu percebesse. E foi para seguir a boa prosa que ela nos convidou para um vinho em sua casa dias depois. Aceitamos!

Chegando tive a sensação de entrar em uma das casas mais organizadas que vi na vida. Tudo em seu devido lugar, limpo e organizadíssimo. Nada em excesso. “Não é necessário muito para ser feliz. A alegria está dentro da gente!”– nos disse orgulhosa enquanto mostrava a casa.

Entre memórias que saltaram dos inúmeros álbuns de fotos e papos gostosos, assistimos suas apresentações nos festivais de música, onde junto com uma banda só de mulheres, cantava divinamente músicas em espanhol – língua que diz amar por sua melodia. Enquanto show gravado transcorria no DVD, ao vivo ela acompanhava cantando pra gente, provando que aos 70 sua voz segue forte e vibrante!

Os papos seguiram até que o assunto casamento chegou. Já sabíamos que seu marido não estava em Curaçao, mas não fazíamos ideia da história que estávamos para conhecer…

Sheillah e o marido Benoit – nascido em Granada (ilha caribenha de colonização francesa), casaram-se jovens e tinham uma vida tranquila em Curaçao. Ela sempre trabalhou em multi atividades enquanto ele trabalhava como massoterapeuta no hospital público da ilha ajudando na recuperação de pacientes. Tudo lindo… tiveram seus 2 filhos e estavam construindo o futuro. Mas, quando os filhos ainda eram crianças, a Holanda enviou uma ordem pedindo para que o hospital fosse reformulado e custos enxugados. Foi assim que os serviços de massoterapia, considerados como um apoio ao paciente, foram cortados.

Com Benoit sem emprego, a situação do casal começou apertar. Durante um tempo Sheillah levou a casa nas costas, mas conforme as crianças cresceram e os gastos aumentaram, ela já não mais conseguia. Benoit, sem encontrar uma recolocação, decidiu voltar para Granada e pedir o apoio dos familiares na busca de emprego. Aos poucos foi conseguindo uma carteira de clientes individuais na ilha francesa. As crianças ficaram com Sheillah e cada um seguiu seu caminho profissional em ajuda mútua. Pra resumir a conversa… faz 28 anos que ele mora em Granada e ela em Curaçao. Nos anos que mais conseguem se ver, se encontram no máximo 3 vezes. E se você pensa que eles se separaram por isso ou o amor acabou, não!! Eles acostumaram com a rotina à distância e seguem se amando e respeitando como cúmplices de vida.

“Estamos ligados pelo coração, é isso que importa.” – afirmou com olhos vibrantes. No mais, ela confessa que nunca moraria em Granada e conta que no fundo, Benoit também prefere sua terra natal. Então, tudo certo!

Conversam pelo telefone todos os dias antes de dormir e namoram sempre que se encontram. São como água e vinho: ela é falante, extrovertida, olhos vibrantes, multitalento, adora sair, cantar, bailar e ele adora ficar em casa, fala pouco, observa muito, não gosta de grandes agitos, gosta de trabalhar e curtir seu canto. Sheillah conta que talvez o casamento só tenha durado tanto tempo pela distância e saudade. Ciúmes? “Ou você confia ou melhor nem estar na relação.” – ela ensina.

Mais uma lição: disse que quando se “separaram” geograficamente, uma vizinha indignada, apontou o dedo dizendo que aquele estilo de vida nunca daria certo e que ela estava maluca em aceitar a situação do marido vivendo em outra ilha. Mas como a vida sempre ensina os “donos da razão”, tempos depois essa mesma vizinha também perdeu a convivência com o marido. Ele trabalhava como comissário de voo de uma Cia aérea local que fazia a travessia entre as ilhas. Um belo dia a tal empresa faliu e para sobreviver, ele teve que procurar emprego nas Cias aéreas internacionais. Foi assim que o vizinho passou a ter uma vida muito mais fora do que em Curaçao.

Lembrando essa época Sheillah aconselha: “Não julgue e nunca aponte o dedo para ninguém. Enquanto apontamos um dedo, outros 4 estão apontados para nós”.

Pra ela, quando entendemos que tudo que nos acontece é um grande aprendizado, nosso foco muda. Passamos a reconhecer que mesmo nossos momentos difíceis e fracassos servem como aprendizados para própria evolução. Ela diz que devemos agradecer tudo que acontece em nossa vida. É gratidão, gratidão, gratidão e sendo assim, nada faltará!!

E ela é assim mesmo!! “Be positive, Luah. Don’t forget to be positive all the time!!!” – repetiu diversas vezes pra mim. (Seja positiva, Luah. Não esqueça de ser positiva o tempo todo!!!”). Pra ela temos que ser positivos o máximo de tempo possível. Aliás, foi esse seu jeitão de pensar que me conectou à ela naquela manhã ensolarada quando fomos alugar um carro.

É gente, a vida não tem regra, não é uma equação matemática. A vida é poesia e tem sua melodia. Feliz de quem entende essa musicalidade e baila com ela!! Sheillah; uma das maiores bailarinas da vida que já conheci. Sou muito grata por esse encontro!

...

Comments are closed.