Andando pelo mundo andino algo bastante curioso nos chamou a atenção.

Quase todos os telhados das casas é decorado com dois tourinhos de barro super adornados, junto com os animais, muitas vezes vemos garrafas de água, outras vezes uma escadinha ou uma cruz, um sol e uma lua, flores e até um galo ou uma ferradura. Nos mercados de artesanato encontramos os tourinhos de novo, não só os de barro como dos telhados, mas tourinhos de várias cores e com um “q” de arte chinesa – lembrando até os famosos dragões asiáticos.

Intrigados fomos perguntar para que serviam. A primeira coisa que nos contaram é se chamam “Toritos de Pucara” – pois são provenientes da cidade de Pucara, localizada entre as regiões de Cusco e Puno. Para os andinos, a dupla de tourinhos serve para proteção, sorte, prosperidade do lar e das famílias. São considerados símbolo andino.

Antes da presença espanhola no país, os animais adorados e reverenciados eram a llama, a alpaca, a vicuña; animais típicos da região. Os espanhóis trouxeram consigo os touros, animais de porte e peso muito maior que os conhecidos até então. Desses animais se extraiu alimento, couro, leite e a força para diversos trabalhos de tração. Imediatamente foram adorados pelo povo nativo.

São diversas as lendas que envolvem esses “toritos”. Uma delas diz que em uma época de seca e aridez sem precedentes, um camponês foi pedir por chuva para o Deus Pachacamaq, em troca daria como oferenda seu touro. Mas o animal, sentindo que algo podia acontecer, resistiu em subir ao altar da divindade, mas foi forçado pelo dono. Chegando ao local, pressionou seu chifre diversas vezes contra uma rocha “sagrada” e ao perfurá-la imediatamente muita água jorrou. Foi tanta água que a comunidade pode sobreviver, e o touro salvo, foi considerando mártir. À partir daí a lenda correu e até hoje os tourinhos são vistos por todos os lados.

Mais algumas curiosidades: os touros coloridos e que se assemelham aos dragões chineses, começam a aparecer depois da grande imigração chinesa no Perú – à partir do séc XIX. Dá pra ver que a fusão cultural trouxe cores e adornos dourados – típicos da Ásia. Cada família hoje em dia, coloca junto aos touros outros símbolos de sorte ou algo que estejam pedindo no momento, como “chuva” por exemplo, por isso colocam as garrafas cheias de água amarradas no telhado.

Enfim, em todas as raças e credos, sempre existiram e seguirão existindo ritos, rituais, lendas e crenças. Talvez isso reflita um pouco do mistério da nossa existência. O Homem sempre buscou explicação para a vida, a morte, para um propósito e o porquê de sua trajetória na Terra. Na falta de respostas nascem as religiões, crenças, mitos e lendas. Elas representam conforto, segurança e conferem alento. Pra nós, independentemente daquilo que acreditamos, o mais fantástico é poder entrar em contato com cada um desses ricos universos, bebendo um pouco dessa criatividade humana em descrever o invisível, em dar nome, símbolo e cor às suas crenças. E acima de tudo, podermos apreciar aquilo que é do “outro”, sem preconceitos e juízo de valor, mas sim com amor e respeito… e porque não, curiosidade! Acho que eu e o Dan temos a curiosidade como característica comum. Temos uma vontade imensa de vivenciar o mundo através de suas inúmeras culturas, talvez seja isso que nos mova adiante.

Agradecimento: em nosso último dia em Puno, recebemos de presente da equipe do Sonesta, dois “Toritos de Pucara”. Ficamos super contentes pelo carinho e gentileza, ainda mais porque ainda não tínhamos comprado os nossos. Temos uma gratidão imensa pelo carinho de toda equipe do Sonesta Posadas del Inca – Puno. Foram 3 dias em que nos sentimos em família, em casa fora de casa! OBRIGADA à todos!!!!

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