Na Volta ao Mundo começamos um processo de mudança que até hoje não parou. Foram mais de 2 anos bebendo de culturas que não imaginávamos um dia conhecer, carregando nas costas apenas o essencial do essencial. Rumamos de peito aberto ao mais completo desconhecido. Abraçamos o mistério de viver, nos entregando às histórias de diversas raças, credos e cores que quebraram paradigmas, preconceitos e mudaram nossa visão de mundo.

No final da viagem eu sabia que o ciclo de aprendizado não havia acabado. Sentia que peças faltavam no meu processo de catarse. Sabia que precisava me realinhar e reposicionar em relação ao meu papel no mundo, mas ainda não tinha uma idéia clara por onde transitar.

Voltamos ao Brasil e várias questões permaneciam sem resposta e foi depois de 1 ano em terras brasileiras que decidimos nos aventurar novamente. Dessa vez nosso destino seria o Caminho de Santiago, onde passamos 60 dias na Espanha, dos quais 52 foram na longa travessia de mais de 800km à pé. Alguns momentos saindo da rota principal do Caminho Francês para descobrir algumas pérolas…

O Caminho de Santiago entrou em nossas vidas nesse momento em que algumas questões ainda não haviam sido respondidas e nos ajudou em muitas respostas. Nos forneceu mais algumas peças do nosso quebra-cabeça da vida. O Caminho é uma travessia pontuada por um começo, meio e fim claros e dizemos que ao terminar, todos passamos por um renascimento. Como o único objetivo é andar, enfrentar e superar as dificuldades do próprio percurso, não existem grandes distrações. Enquanto andamos, nós peregrinos, somos levados à grandes reflexões. Toda a nossa vida acaba sendo revista: desde a infância, passando pela adolescência, ingressando na vida adulta e seus inúmeros contextos, até que passamos a olhar com mais atenção nossos projetos futuros e nosso propósito. À que realmente viemos?!

Dizemos que o Caminho é um jogo diário do “se perder para se encontrar”, não espacialmente, pois as flechas amarelas estão sempre à postos para nos mostrar o caminho, mas em todos os outros sentidos.

Pelos relatos de amigos e peregrinos que fizeram anteriormente a travessia eu já esperava por algo singular e raro. Mas o Caminho foi além me trazendo experiências que me levaram ao confronto direto com meus paradigmas, minhas certezas, meus medos… meu ego.

Quando cheguei em Finisterra (ponto final da jornada), achei que estava pronta para renascer mas hoje, depois de 2 meses e meio de retorno ao Brasil, percebo que muito do que aconteceu não só no Caminho, como na Volta ao Mundo, só começam a fazer sentido agora que a poeira baixou. Tudo parece que vai se encaixando como uma colcha de retalhos. Meu mosaico está sendo reconstruído e começo a ter a compreensão desse longo período de 4 anos com a “mochila nas costas”.

Penso que a maioria de nós, em algum momento da vida, passa por um “turning point” ou ponto de virada, onde as coisas de repente não fazem mais muito sentido – seja na área profissional ou pessoal. É nesse momento que vale a coragem de sondar nossa alma e saber se ela quer mesmo virar a mesa e como fazer. Essa não é uma tarefa fácil, arrisco até dizer que é um caminho sem volta, mas a satisfação ao ver os lampejos da nova vida aparecendo no horizonte é algo sensacional…

O Caminho de Santiago pra mim consolida essa virada de mesa que começou lá atrás, no início de 2011, com o embarque para a Volta ao Mundo. Momento em que muita coisa não mais fazia sentido pra mim.

Apesar do Caminho ser uma experiência mais curta, foi extremamente transformadora e reveladora. Em dois meses muito aconteceu…

Quando dizem que o Caminho fala, fala mesmo!! Dá recados em todos os idiomas, sinais ou signos. Possibilita a transformação naqueles que caminham de peito aberto para viver a mudança. Fica aqui uma boa dica para aqueles em momento de virada…

E como a vida não é imutável, sei que mais momentos de catarse virão.

Que venham as novas jornadas: as que começam dentro e transformam lá fora ou as que começam fora e transformam lá dentro. (Luah)

Ultreya!

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