Tem gente que dá exemplo de que sempre é possível fazer mais, sempre é possível transformar para melhor lugares e também pessoas, principalmente quando se tem amor por aquilo que faz. Hoje estamos falando de Sophie Dessus, prefeita de uma cidade no interior da França que conhecemos durante a Volta ao Mundo. Infelizmente soubemos que Sophie não está mais entre nós desde março deste ano, foi uma pena, era uma mulher tão jovem e tão bacana, mas seu legado com certeza durará por muitas e muitas gerações! Compartilhamos aqui a matéria que publicamos no portal Exame:

Muitos nos perguntam quais os países mais lindos que visitamos ao longo do Projeto Walk and Talk, a França sem dúvida foi um deles. A geografia do interior do país cria visuais incríveis. Montanhas, pedras, castelos, rios, cachoeiras, cavernas, cidades medievais e muito verde formam as paisagens ao redor de Uzerche, cenário da nossa próxima história. Apesar desses atrativos não é só de turismo que vive a região. Espetáculos culturais, teatrais, musicais, de dança e arte recheiam de acontecimentos a agenda da cidade, que nos últimos anos vem se tornando cada vez mais conhecida.

Para descobrir por que e como, essa efervescência artística e cultural estava acontecendo, conseguimos um entrevista com a Prefeita da cidade de Uzerche. Sophie Dessus nos recebeu em seu gabinete e contou que o foco de seu governo era tornar a cidade conhecida nacional e internacionalmente por acolher esses eventos. Ela disse que sempre buscou maneiras de deixar a cidade atraente e estruturada para receber turistas e interessados em participar desse roteiro de arte e cultura.

De esculturas modernas espalhadas pela cidade em praças e jardins, à reforma de um antigo galpão que fomos visitar, Sophie estava construindo uma nova imagem para a cidade. O galpão se chama Papeterie, pois se trata de uma antiga fábrica de papel abandonada, e que se tornará um centro cultural, com espaço para espetáculos, oficinas, exposições, cursos e palestras. A prefeita conseguiu provar a importância do projeto da Papeterie e recebeu até mesmo verbas federais para concretização do que para ela e para a cidade era um grande sonho. O local também contará com hospedagem para os artistas que vem de longe para que possam se apresentar ou dar aulas, cursos, etc. Existe também todo o viés de sustentabilidade e um forte caráter ecológico com preocupações ambientais.

Sophie Dessus acredita que “quanto mais possibilidade de troca há entre os povos, mais a humanidade se enriquece e se desenvolve”. Ela é nascida em Paris, mas acabou mudando para a cidade há muitos anos, tem 4 filhos e seu primeiro casamento foi com um agricultor de Uzerche, (que era presidente da Associação de Agricultores Orgânicos). Atualmente ela é casada com um político, que é Diretor Geral de Serviços de Corrèze. Antes de ser prefeita foi Conselheira Geral da cidade e reeleita diversas vezes.

Recentemente ganhou um importante Prêmio de Inovação do Ministério da Justiça francês por um outro projeto em que o presídio da região recebe presos de todo o país para trabalhar com arte. Através da dança, por exemplo, conhecem mais a si mesmos, trabalham disciplina, dedicação e dão mais valor às suas conquistas. Essa ação contribuiu para o processo de reabilitação no presídio, aumentando consideravelmente a taxa de inserção no mercado de trabalho, quando os detentos retornam à sociedade. Inclusive a Papeterie se relaciona com esse projeto recebendo ex-presidiários como mão de obra.

Na nossa conversa e em suas ações ficou claro que Sophie não se contentava com o cotidiano, ela mesma disse que “o interessante é ver o futuro para poder criar”. Sempre achou que os artistas ajudam a sociedade a evoluir, ainda que muitos não sejam compreendidos. Apesar dos vários feitos comentou que não tem talento para a política e sim uma grande força de vontade. Nos contou também que não vê problemas em ser mulher e assumir um cargo de liderança.

Alguns meses depois da nossa entrevista Sophie Dessus, (que também conquistou o cargo de Deputada Federal) foi reeleita prefeita de Uzerche.

Soubemos também que recentemente a Papeterie foi concluída, com direito a museu de arte contemporânea, boutiques de arte, etc. Se tornou um importante centro de desenvolvimento econômico e integração social. Outra notícia é que mais esculturas de artistas conceituados foram espalhadas pela cidade, que antes nem era conhecida no mapa, infelizmente era uma cidade suja, escura e abandonada.

Que esse exemplo sirva para inspirar aos que almejam qualquer tipo de liderança. Com visão no futuro, desenvolvendo a civilidade e a arte, é possível educar, entreter, divertir e evoluir.

Só por curiosidade, o significado original da palavra político vem de duas palavras vindas do grego “polis” (que significa “muitos” ou “cidade”) + “ético”. Ou seja, político deveria ser aquele que governa a cidade à partir da ética. Uma pena que a maioria dos nossos representantes talvez nem mesmo saibam a origem da palavra e muito menos a importância que seus cargos “políticos” deveriam representar.

Ps. Essa entrevista só foi possível graças à tradução de Cristina Sainte Marie, a quem agradecemos.

Por Danilo España

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