Certa noite em Ollantaytambo, fomos comer uma pizza em um cantinho chamado Inti-Killa (Sol-Lua em Quechua*), indicado por ter uma boa pizza no forno à lenha.

Quem nos atendeu foi Luciano, um menino com um sorriso maior que o rosto, uma energia contagiante, educado e super prestativo. Fiquei observando esse jeito especial de ser e vi que transbordava com os demais clientes e também com a equipe.

Eram quase 10 da noite e logo mais o local fecharia, mesmo assim, o jovem peruano interagia como se fosse o início da jornada de trabalho. Comemos. Tudo estava gostoso como o prometido. A conta veio, aproveitei para puxar mais papo e ver se entendia um pouco mais sobre o segredo daquele entusiasmo acima da média.

“O que te motiva?” – perguntei. Pra quem nos acompanha faz pouco tempo, esse era o tema da nossa Volta ao Mundo.

Luciano abriu mais uma vez o sorriso iluminado e prontamente respondeu: “O esforço!”.

Em cinco anos pesquisando o tema, nunca tínhamos escutado essa resposta, ainda mais de alguém tão jovem. Pra mim, uma quebra de paradigmas. Insisti mais uma vez “De tudo que move você, o esforço é realmente a principal força?”

“Sim!” – ele insistiu.

“Quantos anos você tem?” – perguntei

“16” – respondeu.

Imaginei que havia largado os estudos para trabalhar e juntar dinheiro. Talvez isso explicasse sua disposição. Mas não, Luciano estudava pela manhã e emendava o dia trabalhando das 13 às 22 hrs. Contou que ia super bem no colégio, o segredo era estudar nos momentos de baixa clientela no restaurante. Seu sonho era ser advogado e sabia que pra isso precisava estudar. Já estava se preparando para a Universidade.

Disse que sentia em seu DNA a força dos Incas e dessa forte civilização onde o esforço foi base para o avanço e crescimento, mesmo em meio à tanta adversidade.

Essa resposta me tocou, me fez refletir, me transformou…

Vi como o exemplo pode inspirar e gerar admiração ao longo de muitas gerações. Essa é uma parte do mundo onde o esforço marcou o passado e continua sendo parte integrante do presente. Das monumentais construções Incas, ao esforço diário das mulheres que carregam seus filhos à tira-colo em busca de água e alimento. Do cultivo em terraços áridos e íngremes às dificuldades de se viver em um ar rarefeito. Sem esquecer do frio e das imensas cordilheiras que cortam grande parte do território.

Em nossos dias no Perú, não ouvimos reclamação ou mi mi mi, o que percebemos foi um sentimento imenso de patriotismo e de amor à Terra e às suas raízes.

Luciano, cresceu rodeado pelos registros vivos desse povo esforçado e que não abaixa a cabeça. Muito provavelmente é por isso que vê no “esforço” a grande energia que o faz acordar todos os dias e seguir adiante. Está certo de que um dia será recompensado e que seus sonhos serão alcançados através do mérito.

Esse papo me fez enxergar o esforço de outra maneira. O vi como um aliado de jornada e não como motivo de reclamação. Já que se esforçar é essencial para as conquistas da nossa vida, então porque não encarar esse esforço com positividade?

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