O Caminho de Santiago não foi nossa primeira experiência carregando apenas o essencial. Na volta ao mundo – nosso primeiro projeto, experimentamos pela primeira vez o que é selecionar, triar e nos abastecer apenas com aquilo que realmente conseguimos levar nas costas. Foram mais de 2 anos com apenas 15 quilos em cada mochila, e o que no início parecia uma quantidade tão pequena de coisas, com o passar do tempo se mostrou mais do que o necessário para viver no mundo.

Lembro bem do dia em que a equipe da Curtlo (marca de equipamentos de aventura que nos apoiou) avisou categoricamente que não podíamos exagerar no peso levado nas costas pois isso podia trazer uma série de complicações em nosso corpo. Eu, que até então sempre embarcava de férias com grandes malas, arrumadas sem critério algum, sabia o tamanho do desafio na hora de arrumar minhas coisas para a volta ao mundo. E foi exatamente isso que aconteceu. Foram mais de 10 dias de mi mi mi para selecionar o que deveria ou não estar comigo na longa jornada. Confesso que foi um parto fazer meu mochilão. É claro que embarquei com a mochila quase explodindo… e é claro também que depois de 10 dias de jornada as peças excedentes foram sendo doadas pelo caminho. Assim foi ao longo da jornada, no regresso ao Brasil tínhamos apenas o essencial.

Percebemos o quanto somos acostumados ao sobrepeso. Estamos acostumados a carregar nas costas muito mais do que aguentamos, nos asfixiando de coisas, sentimentos e pensamentos que fazem a vida ficar bem mais pesada; em todos os sentidos!

Mas afinal, o que realmente precisamos e queremos carregar em nossas costas? O que realmente importa na bagagem da vida? Essa foi uma das maiores metáforas e lições aprendidas na volta ao mundo.

Foram mais de 2 anos tirando os quilos extras trazidos pela correria da vida, pelo acúmulo diário e rotineiro. Antes de viajar, por exemplo, carregava na bolsa 3 celulares, um pra cada operadora. Jurava estar fazendo economia. Economia?! Foi uma libertação não usar celular ao longo da viagem, uma desintoxicação eletrônica muito interessante.

Percebi também que carregava um peso imenso de mágoas e frustrações do passado, cujas lições já haviam sido absorvidas, mas seus fantasmas seguiam firmes e fortes sobrecarregando minhas costas e minha alma.

No Caminho de Santiago tivemos que nos superar mais uma vez. Nessa jornada a meta seria caminhar mais de 800km e mais uma vez a Curtlo nos aconselhou. Teríamos que conseguir o feito de carregar apenas 10% do peso do nosso corpo, caso contrário estaríamos lascados. Mas dessa vez o sofrimento foi bem menor, decidimos ir direto ao ponto, cortando todas as possibilidades de excesso. Passei a régua em todas as frescuras tipicamente femininas e consegui colocar na mochila o essencial do essencial. Feliz da vida, decolei para a Espanha com apenas 5,2 kg que lá ganhariam um acréscimo de mais um quilo e pouco com os últimos equipamentos comprados em solo espanhol.

Roupas levíssimas em pouca quantidade, uma boa bota e uma papete, alguns acessórios para dormir – igualmente leves, e uma mini-mini-mini necessaire. Nada de cremes para cabelo, maquiagens, loções, nada… No Caminho não valem excessos, temos que arcar com aquilo que escolhemos levar enfrentando o sol, as montanhas, o frio e os relevos da jornada. Os 52 dias no Caminho de Santiago esvaziaram mais uma vez a mente e alimentaram o espírito. Outra oportunidade para perceber que a vida requer muito menos do que imaginamos para ser felizes. Na simplicidade está um grande presente. Um banho quente no dia frio, o pé cansado repousando na água corrente do rio, a sombra frondosa de um castanheiro centenário, uma boa conversa de botequim, um copo de água pura no calor da jornada…

Nossa lição foi muito além do material. Chegamos a conclusão que nessa vida realmente podemos carregar apenas o necessário, aquilo que vale a pena, os sentimentos que fazem bem pra nossa alma. Os acúmulos podem ser aos poucos deixados de lado, em um processo de limpeza externa e interna. Me lembrei muito dos gregos helênicos que frequentavam periodicamente as termas e banhos públicos com a finalidade literal de “lavar a alma”, não apenas limpando o corpo físico como também o mental e o espiritual. Tinham assim a possibilidade de perceber e esvaziar os “sobrepesos”, incorporando essa “limpeza” em sua rotina. Porém o mundo foi se tornando tão veloz e o tempo tão escasso que fomos nos tornando frenéticos acumuladores, homens e mulheres de costas largas e mentes pesadas. Mais de 2 mil anos atrás o ser humano já sabia que esvaziar a bagagem era essencial para uma vida mais plena e harmônica.

Por Luah Galvão

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