Enquanto nossos pés estavam sobre as ilhas, a sensação foi de estarmos fora do tempo. Parece que fomos transportados para um outro tempo-espaço, para um universo um tanto quanto onírico.

Ao caminhar sentimos a instabilidade do piso de totora, ao mesmo tempo, olhando ao redor, vimos firmes construções e habitantes vivendo normalmente, reparamos o quão forte e frágil essas ilhas podem ser ao mesmo tempo. Talvez exatamente por isso, tenham essa resistência “secular”, se perpetuando até os dias de hoje. O homem é mesmo muito criativo, sempre foi… e em nome da sobrevivência e subsistência criou feitos inenarráveis mesmo diante das situações menos favoráveis. Acho que as ilhas do Titicaca representam a mais pura resiliência.

Nos posts anteriores comentamos sobre educação, saúde, dia-a-dia, trabalho, história, origem, enfim, vários pontos dessas curiosas comunidades. Ficou faltando um ingrediente importante e interessante: sua organização.

Os Uros são organizados, tanto no sentido social como político. Como vivem do turismo, optaram por um rodízio entre as diferentes ilhas para receber os tours, assim todas tem a garantia de se beneficiar ao longo do ano.

Grande parte da renda se origina da venda de artesanatos. Além das atividades para manutenção da ilha, cuidado dos filhos, etc, as mulheres costumam fazer bordados típicos da região. Produtos que não são originalmente produzidos na comunidade também são vendidos para ajudar na renda familiar.

Soubemos também que eles possuem dois tipos de líderes: um é chamado de Presidente (eleito a cada 2 anos), ele é responsável por cuidar dos interesses da comunidade dos Uros que vivem apenas nas Ilhas. O outro, é chamado Alcaide (eleito a cada 4 anos) e cuida dos interesses dos Uros que estão nas ilhas e também da parte da comunidade que está em terra. No momento o Alcaide é uma mulher.

Olha que interessante, o dinheiro que as ilhas recebem da venda de artesanato fica para as famílias daquela comunidade. Mas existe uma segunda fonte de renda. Trata-se um passeio oferecido aos turistas nas embarcações de totora, que podem dar uma volta próximo à ilha ou levar os turistas para conhecerem outras ilhas próximas. O valor do passeio é de 10 soles por pessoa. Do valor total recebido com essa atividade, 10% fica para a ilha, e os 90% recolhidos pelo Presidente, são usados para cuidar dos doentes e anciãos da comunidade que não possuem recursos. É uma questão muito séria, já que a maioria da população de Uros, por viver muito próxima da água, tem reumatismo precoce e acaba vivendo no máximo até os 65 anos.

Essa é uma divisão amorosa e socialmente saudável, já que se preocupam em cuidar dos mais velhos e dos doentes. A organização dos Uros, hoje em dia, é uma de suas fortalezas, pois sem ela seria impossível manter em funcionamento, um dos lugares mais exóticos em todo o mundo. Foi um privilégio conhecer mais sobre esse povo e seu jeito único de viver.

Dica: pra quem gostou desse post e quer saber mais sobre a vida nas Ilhas Flutuantes do Titicaca, vale a pena ver os 2 primeiros, basta descer o rol aqui do Face.

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