Em um momento em que nós brasileiros temos um vazio tão grande de lideranças, Taquille – uma pequena ilha do Perú, nos mostra que o ser humano tem sim a capacidade de se organizar em prol ao bem comum.

Era uma manhã ensolarada na região do Lago Titicaca, tínhamos acabado de sair do turismo vivencial em Amantaní (post anterior). Nossas cabeças ainda não haviam decantado a rica experiência e antes do retorno ao continente, ganhamos mais um presente: uma parada na Ilha de Taquille.

Assim como Amantaní, a nova Ilha descoberta também nos encantou por sua limpeza e organização minuciosas, mas Taquille foi além, nos despertou para seu modelo político-social. Ao contrário de outras ilhas ou regiões, não houve muita miscigenação e apesar do fluxo de turismo crescente, sua raiz cultural tem sido preservada por muitos séculos.

Os nativos tem seu próprio governo, não necessitando de policiais, delegados, advogados ou qualquer estrutrura jurídica das cidades grandes. Todos os problemas se resolvem na própria Ilha.

Taquille se divide em 4 regiões – como se fossem 4 bairros, cada qual com seu líder. Os líderes representam os interesses de suas regiões e são identificados pelo uso de um chapéu preto. Todos os domingos, ao invés do tradicional descanso dominical, eles se reúnem na praça central para resolver os problemas da Ilha. Esses encontros são públicos e além da presença e participação dos cidadãos nas questões, contam também com as 4 esposas dos líderes – que funcionam como conselheiras.

O sistema é bem interessante… as 4 esposas – super bem ornadas com trajes típicos nativos, assistem às “assembléias” ouvindo atentamente todos os assuntos trazidos. Os temas levantados em cada domingo são discutidos entre os chefes e suas esposas ao longo da semana e no domingo seguinte as soluções são apresentadas em público, antes que se iniciem as novas demandas.

Os assuntos são os mais variados, incorporando causas de interesse comum como turismo na região, negócios, crescimento, saúde pública, educação, cultivo e agricultura, sem esquecer de possíveis questões como briga ou discussão entre os moradores, entre outros…

Observamos que os nativos de Taquille tem um enorme senso da vida em grupo e se organizam “politica e socialmente” para manter a coletividade sempre como maior pilar. Só para dar mais um exemplo, todo artesanato produzido na Ilha – um dos mais trabalhados da região, é vendido através das associações de moradores que se organizam na confecção, venda e administração dos recursos. O indivíduo se vê como parte do todo e suas ações são voltadas prioritariamente para o grupo e depois para si.

Taquille nos fez pensar que o Homem sempre teve e terá uma capacidade intrínseca de organização e liderança. O que falta para que os sistemas também sejam virtuosos em outros lugares é a importância dada aos valores. Culturas pautadas na ética e na real visão do coletivo, consolidam resultados mais justos, harmônicos e exemplares.

A pequena Ilha do Titicaca é uma vitrine para o real sentido da palavra política, que nasce do povo para o povo e vem do grego pólis + ética.

Dica: futuros viajantes, vale muito incluir na programação um tour em Taquille e buscar um bom guia fará toda a diferença. Além do sistema de liderança existem outras peculiaridades super interessantes na Ilha, apenas contadas pelos guias que conhecem bem o local.

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