Quando chegamos na cidade de Castrojeriz, passamos em frente a uma casa com a seguinte placa: “Hospital del Alma”. Achamos curioso e não entendemos bem do que se tratava. Sentimos vontade de entrar, mas como aquela era nossa cidade de destino, decidimos primeiro “chegar” e deixar as mochilas, que à essa altura pareciam pesar o dobro!

Ficamos com o “Hospital del Alma” na cabeça e mais tarde voltamos para checar…

A porta estava aberta e o lugar não tinha campainha; nos sentimos convidados a entrar. Caímos em uma ante sala com várias fotos lindas espalhadas pelas paredes compondo uma exposição chamada ‘Luz e Sombra’. O interessante é que cada foto vinha acompanhada com uma frase que nos fazia pensar sobre a vida…

Seguimos conhecendo a peculiar casa sem encontrar ninguém. Chamamos na esperança de alguém aparecer e nada… Então demos de cara com uma mesa cheia de biscoitos, chocolate, frutas, suco, água, chá… sentimos que tudo estava ali à disposição.

O cômodo seguinte era um ambiente incrível; uma pequena sala com o teto todo de vidro; meio parte da casa, parte do jardim, recheada de objetos antigos e diferentes espalhados de uma maneira super bacana e muitos livros para ler.

O lugar inspirava calma e tranquilidade. Perfeito para descansar e entrar em contato com um pouco de silêncio.

Vimos uma placa convidando para o segundo andar. Subimos. Passeamos pelo quarto, banheiro, sala de leitura, um ateliêr e por mais uma incrível sala com mais fotos da exposição. Descemos e pra nossa surpresa descobrimos que no fundo do jardim havia uma pequena caverna que foi transformada em capela, cheia de símbolos de vários credos, incluindo uma cruz chamada de ‘a cruz que ri”. Aproveitamos a paz do lugar para agradecer por nossos passos no Caminho.

Mas qual seria a história daquele lugar?! Quem eram os donos?! Será que voltariam a tempo de conhecê-los?!

Para nossa sorte, depois de um tempinho aparecem Nia e Mau – um casal tão peculiar quanto o espaço. Ele um italiano-peregrino que parecia sair de um filme e ela, espanhola, com longos cabelos cacheados e apesar do rosto forte, levava um semblante de amor e tranquilidade. Reconhecemos que Mau era a figura presente em quase todas as fotos da exposição e soubemos mais tarde que Nia era a fotógrafa.

Nossas energias bateram de cara e começamos a bater papo. Nos contaram que a casa ficava o dia todo aberta, independente se estavam ou não. Aliás, confessaram que a maior parte do tempo não estavam.

Nia e Mau se conheceram no Caminho de Santiago, quando ela fazia o percurso pela primeira vez. Aliás, no primeiro dia da caminhada como ela se orgulha de contar. Se apaixonaram e decidiram que queriam morar juntos no Caminho… Mais do que isso, queria fazer de suas vidas algo especial. Resolveram criar o Hospital da Alma…

Encontraram a cidade que queriam ficar e depois uma casa que parecia cair aos pedaços mas que seria perfeita para o que queriam. Com muito custo e dedicação reformaram a casa com mais de 200 anos e a transformaram em um lugar pra lá de aprazível. Cada detalhe foi pensado com carinho e cuidado.

A idéia foi criar um espaço que tivesse a função de instigar a calma e o descanso. Um espaço que pudesse “cuidar da alma” de peregrinos, viajantes e amigos. Além das salas e o jardim para leitura e descanso, dos alimentos e bebidas sempre à disposição, deixam sua cozinha livre caso alguém precise cozinhar e também um chuveiro.

Não pedem nenhum dinheiro para a utilização do lugar. E como vivem?! Essa também foi a pergunta que fizemos…

Exibem em um parte da casa cartões postais com cópias das fotos da exposição, além de alguns cadernos especiais feitos por Nia, usando uma técnica especial japonesa de confecção e encadernação. Caso alguém queira um dos itens, deixam uma caixa para que a pessoa decida quanto vale seu trabalho e decida quanto vai pagar.

Disseram que não precisam muito para viver e descobriram fazendo o Caminho o quanto é importante ter uma casa aberta que receba sem preconceito seja quem for. O lugar é mais que uma casa, é um coração aberto para todos…

O Caminho nos mostra sistemas e posicionamentos muito diferentes dos habituais. Onde a confiança existe antes da desconfiança. E deixam abertas suas portas, que dizem funcionar como um filtro, onde só pessoas que se sintam convidadas entrarão. Aliás, pra nossa sorte não só tivemos a honra de conhecer esses dois seres de luz, como comemorar o aniversário da Nia que fazia anos bem naquele dia!! Cantamos um gostoso parabéns à você em português… Mas quem nos presenteou foram eles!!

Gratidão pelo exemplo!! Ultreya…

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