Walk and Talk in Glastonbury Tor

Numa boa parte da adolescência fiquei absorta pelas lendas do Rei Arthur e todos os fascinantes personagens que circulam a fábula: Morgana, Mago Merlin, Lancelote, Excalibur, Viviane – a Dama do Lago, Igraine…

Li e reli diversas vezes as Brumas de Avalon, uma coleção de livros que apresentava a saga à luz da ótica feminina. A cada página era transportada para lugares mágicos que visitei em sonhos diversas vezes e que lá fundinho suspeitava que um dia pudesse vivenciar. A atmosfera arturiana era tão envolvente que na época trocava cartas e mais cartas com uma amiga de colégio as quais assinávamos com o pseudônimo das personagens da lenda. Anos se passaram e meus pés ganharam a Grã Bretanha, e foi com o Walk and Talk que resolvi saciar meu sonho adolescente: ir para a região onde boa parte da lenda se passou. Glastonbury é o próximo destino que quero levar vocês pra viajar com a gente…

Mapa de Glastonbury Tor

De Londres pegamos um ônibus em uma das modernas rodoviárias da cidade e partimos para mais uma aventura. Foram 3 horas degustando paisagens que pareciam sair de um filme. Fazendas e mais fazendas, vaquinhas malhadas, casas com telhados de sapê e um campo verde infinito reluzindo em baixos relevos. Parecia que tínhamos voltado no tempo e isso foi preparando a gente para pisar no nosso destino.

Glastonbury é um dos centros mais conhecidos de mantenimento das fábulas de Rei Arthur, assim como da cultura Celta. Também é palco do famoso Glastonbury Festival – o maior festival de música a céu aberto do mundo. Lá também estava o alvo da minha visita, lugar tão citado nas Brumas de Avalon: a Glastonbury Tor ou “Ilha de Avalon”. Local que atrai peregrinos e turistas do mundo inteiro. Tor em Celta significa “montanha” e acima dos seus 158 metros está a torre de São Michael, única estrutura sobrevivente de um terremoto em 1275 que destruiu o resto da Igreja que levava o mesmo nome. Nosso objetivo: subir os misteriosos 7 níveis em espiral para chegar no cume da “sagrada” montanha, que muitos afirmam ser um dos lugares que salvaguardaram o Santo Graal.

Brumas de Avalon sempre jogou mais molho no mistério de Tor, dizendo sobre os poderes mágicos dessa que é a única estrutura em relevo em toda a região; absolutamente plana. A colina mais parece uma ilha deserta em meio à um oceano de retidão. Dizem que ao amanhecer uma bruma densa envolve o local e a única coisa que desponta no horizonte acima do chão de nuvens é o cume de Tor e sua pequena torre sem teto. Dizem que antigamente a região foi banhada pelas águas do Rio Brue e que Glastonbury Tor era uma solitária ilhota no meio do nada.

Glastonbury Tor

Bom, lá estávamos nós nesse contexto mesclado de fantasia e curiosidade. Descemos do ônibus uma parada antes de chegar na cidade, para aqueles que queriam ir direto para Tor aquela era a indicação para cortar caminho. Dois, três passos e já avistamos no horizonte a famosa colina em espiral, linda, pujante, chamando a gente!! Por onde ir?! Sem muitas indicações ela iria nos guiar. De qualquer modo perguntamos se havia alguma trilha e nos apontaram um caminho no meio da floresta. Bom, não tínhamos previsto um dia de aventura mas já que estávamos de tênis lá fomos nós nos embrenhando mata adentro. A trilha cada vez mais fina e imperceptível e a mata cada vez mais densa até que não mais enxergamos Tor para nos guiar visualmente. Depois de algumas bifurcações chegamos a conclusão que estávamos perdidos. Estávamos tão perto e tão longe ao mesmo tempo. Sensação estranha. De repente algumas vozes despontaram no nada. Se estivéssemos no Brasil o medo certamente teria nos invadido, mas não: estávamos na Inglaterra!! Chamamos pelas vozes pedindo ajuda e logo encontramos um casal celestial que imadiatamente nos saudou com um largo abraço. “Ah, vocês são do Brasil?! Também vieram para a festa das Deusas?” – disse a mulher, uma ruivinha de saia rodada no meio da relva. “Deusas?! Que festa das Deusas?!” – dissemos nós. “Não, estamos tentando chegar na Tor!!”. “Ah, e estão perdidos, certo?! Levamos vocês até o caminho” – sorriu o marido e nos conduziram até o final da trilha que acabava em uma estrada bem sinalizada de onde a Tor já podia ser vista. Tínhamos cortado um bom caminho, mesmo assim foi inacreditável o encontro com aqueles 2 seres tão simpáticos e disponíveis no meio do nada. Assim que nos colocaram em “marcha”, voltaram para a mata e sumiram novamente. Ok!! Disseram que esse é um terreno mágico. Começamos a acreditar.

Luah Galvao e Danilo Espana em Glastonbury Tor

No caminho certo, avistamos um volume grande de pessoas indo ao encontro da montanha “sagrada” e a única coisa que ficou ecoando em nossas cabeças foi: “Festa das Deusas…”. Teríamos que ver isso de perto. Depois da Tor certamente o destino seria o povoado de Glastonbury!! Esquecemos a festividade e nossa atenção voltou-se para a colina palco de diversas passagens históricas importantes e muitas, muitas lendas. À começar pelos sete patamares em espiral que levam ao cume, estrutura super antiga dotada de inúmeras explicações, nenhuma comprovada. Pesquisadores das mais variadas áreas atribuem significados diversos à espiral de Tor: degraus para o plantio agrícola, espaço para criação de gado, muralhas defensivas ou até um labirinto. Mas supostamente todas as teorias estudadas caíram por terra garantindo a preservação do mistério da lenda celta que diz que Tor é o portal para o encantado mundo de Avalon; ou mundo das Fadas. Começamos nossa peregrinação. Conforme subíamos o tempo ia se abrindo, o céu esquentava clareando o horizonte em igual proporção. Um vento suave acompanhava nossa escalada aliviando o sol.

Glastonbury Tor - Walk and Talk

No caminho turistas e peregrinos de todos os cantos aproveitavam a paz e magia do lugar para entrar em contato consigo, meditar, sentir a natureza em abundância. A cada patamar um suspiro, uma lembrança, um sorriso. Sei lá como explicar entramos em conexão com algo a mais que essa colina permitia. Lá no topo um encontro com a torre de São Michael, um marco da história e do tempo, das memórias dos povos que por lá passaram. Acima de tudo tivemos um encontro com a paisagem indescritível presenteada por Tor, de fato a única elevação geográfica de toda região. Avistamos quilômetros e quilômetros à perder de vista: fazendas, vilarejos, plantações, construções antigas, pastos, animais, tudo junto numa imensidão retilínea e calma. De lá de cima a gente se sente mesmo numa ilha, basta um segundo de imaginação que é possível ver a água desenhando o entorno da montanha, sumindo com a paisagem ao redor, a bruma baixando no céu e mais nada… pronto as descrições da Ilha de Avalon contidas no livro da minha adolescência eram perfeitas. Sim, pra mim aquela era mesmo a tal ilhota encantada da fábula arturiana. Comecei a reconstruir a história de Avalon as lembranças remanescentes me fizeram por instantes crer que aquele pedaço do mundo pudesse mesmo ter guardado o Santo Graal. E por que não?!

Torre de Glastonbury

Voltando das minhas lembranças olhei ao redor e senti que muitos ali compactuavam com meus pensamentos e sua empatia com o local revelava algo mais profundo do que estar em uma conhecida atração turística. Por alguns momentos eu e o Dan nos conectamos com o lugar, com aquelas pessoas que meditavam, escreviam, sorriam, rezavam, fotografavam ou celebravam a vida. Uma felicidade extrema tocou minha alma. Paz era aquilo que sentíamos. Depois de um bom tempo nessa simbiose gostosa, descemos a montanha, dessa vez no sentido da cidade. Tenho que confessar que não sei exatamente porque, a visita à Glastonbury foi uma das coisas mais incríveis da viagem. O mais interessante é que nossa conexão com parte da história e das lendas de Tor se deu exatamente num dia de celebração especial: o encontro das Deusas. Mais um capítulo do dia esperava por nós, mas sobre essa festa que transforma e colore a cidade falamos logo mais.

Glastonbury Tor Dan e Luah

Foi muito interessante e inspirador realizar esse sonho de adolescência. Viver as páginas de Brumas de Avalon na vida real. Nem sempre fantasia e realidade se tocam, talvez quase nunca… mas esse foi um desses dias raros, simbólicos que me fazem insistir em dizer que essas grandes viagens são mesmo um passaporte para um milhão de sonhos.

Por Luah Galvão

Pra quem estiver na Inglaterra essa é uma super dica do Walk and Talk.

Luah Galvao

walkandtalk 3

Ao sairmos da Inglaterra nosso próximo destino foi a França, de Londres à Paris de trem é possível viajar pelo terceiro maior túnel ferroviário do mundo, o Eurotúnel, que atravessa os mais de 50Km do canal da mancha. A Eurail Group tem uma parceria com a empresa que faz esse trecho tornando a passagem muito mais barata para quem possui um Eurail Pass.

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