walk and talk paisagem francaSinto que o projeto Walk and Talk nos tornou caçadores de histórias. Quanto mais andamos por esse mundão, mais nossas bagagens foram lotando de passagens interessantes, lendas urbanas, gestos e atitudes que inspiram e motivam. Nossa próxima parada é no interior da França, região de Uzerche, cidadezinha que nos últimos anos foi se tornando um polo cultural, e tem em seu entorno uma paisagem abundantemente verde  e fazendas e mais fazendas de maçãs.

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Estávamos hospedados com um primo, que na época alugava uma casinha muito bacana dentro da área de uma pequena fazenda. A fazendinha francesa tinha os ares daquelas retratadas nos filmes: estábulo, celeiro, armazém, belos cavalos ao redor, flores do campo e uma horta… e é bem no meio de muitos legumes e verduras que nossa próxima história começa. Tínhamos acabado de acordar. Com uma caneca de café quente saí para olhar o sol vibrante que levantava no horizonte, quando me deparei com um casal de meia idade que lotava uma cesta de palha com diversas coisas colhidas em “nossa” horta. Estranhei. Nessas horas nosso sangue brasileiro e naturalmente desconfiado já inflama. Só pra conferir chamei os meninos. Vai saber…

O casal percebendo que eu estava na varanda me olhou. Acenaram fraternalmente. O que não sabíamos até o momento é que algumas dependências da propriedade eram compartilhadas e o casal, amigo do dono da fazenda, tinha um acordo que lhes permitia plantar o que quisessem naquele pedaço de terra. Mais pra frente descobrimos a paixão dos franceses pelo cultivo. Eles são amantes dos produtos orgânicos e sempre que podem e tem espaço, cultivam diversos alimentos para seu próprio consumo.

Fomos ao encontro do casal francês. Entre batatas, tomates, pés de couve e beterrabas tivemos uma nutritiva conversa mesmo eu e o Dan sendo super leigos em francês. Entre risos e abraços, mímica e traduções, a única coisa que entendemos de fato ao final daquele papo é que estávamos convidados para jantar na casa do casal alguns dias depois. Ok, topado!! Meu primo Jean que fala francês super bem, na data estaria fora da cidade, então ficou nas mãos de Marcos – um amigo brasileiro há pouco tempo na França, nos ajudar com as traduções.

walk and talk colheita

Eu e meu primo Jean

Os dias se passaram cheios de atividades e quando percebemos estávamos no dia marcado pela família Bonnaire. Lembramos do nosso compromisso meio que por acaso. Já tínhamos feito tantas coisas até aquela hora do dia que a preguiça começou a tomar conta de nós. Será que o convite estava de pé, ou era da boca pra fora como fazemos sempre no Brasil?!

Ligamos pro Marcos.“Será que os Bonnaire estão mesmo nos esperando?! Você tá afim de ir?!”. Na dúvida, pedimos que ele desse uma ligadinha… 
O Marcos retorna logo em seguida: “Meninos, corram que eles estão esperando “mesmo” e confirmaram nosso horário de chegada. Pelas minhas contas temos que correr pra não atrasar. Tô passando aí!.” Do jeito que estávamos seguimos para a cidadezinha vizinha chamada Pompadour. No caminho questionamos como seria nossa noite sem saber um “a” em francês, mas o Marcos nos garantiu que faria seu melhor para traduzir as conversas.

Sim é verdade que muitos franceses não falam inglês, muitos mesmo. E outros que até falam, não gostam de “trocar a chave” para o idioma. Mas não era o caso dos Bonnaire que eram muito fofos, abertos, falantes, engraçados – parecendo mais brasileiros que nós, porém não falavam 1 palavra em inglês.

Bom, ao chegar fomos recebidos com um afetuoso abraço de mãe. A Sra Bonnaire começou a nos guiar mostrando sua casa; tipicamente européia, e comentou que nosso jantar seria no jardim. Ótima escolha pois no verão europeu o sol só se vai por volta das 9 da noite.

Passamos da casa para o jardim, um espaço enorme, delicioso, cheio de flores, comum à casa dos Bonnaire e de sua filha Patricia, casada há poucos anos. Depois de um tour completo nos instalamos na varanda de um espaço onde o casal produzia vinhos e licores caseiros. Assim que nos sentamos a Sra Bonnaire deu início ao que seria uma das maiores aventuras gastronômicas da viagem. Sabores típicos da França passaram pela nossa mesa em forma de canapés, delicinhas em potinhos, comidinhas, docinhos, tudo e mais um pouco que se pode imaginar – certamente preparado com muita antecedência. Pelo primor de cada iguaria servida, percebemos o trabalho que os Bonnaire tiveram durante os dias antecedentes para preparar tudo o que nos foi servido. Carinho nas preparações e amor ao servir pontuaram nosso final de tarde que, sem pressa, adentrou a noite.

walk and talk jantar na franca

Eu, Sra e Sr Bonnaire, Patricia e seu marido e o Dan…

O Sr Bonnaire, assim que nos convidou lá na fazenda, se preocupou em fazer licor de nozes caseiro para que pudéssemos experimentar. Patricia, a filha do casal, em um determinado momento veio nos presentear com alguns objetos típicos separados para nós. Parece que todos passaram um bom tempo de suas vidas no preparo do que seria o encontro com os brasileiros estudantes de motivação. Pensando sobre essa noite percebi o quanto nós seres humanos temos um poder enorme de comunicação através de outras vias que não necessariamente a palavra dita. Mesmo com a ajuda do Marcos, diversas vezes usamos nosso corpo, nossa percepção e nossos sentidos para interagir na agradabilíssima noite de verão em Pompadour.

walk and talk luah

Delicinhas da Sra Bonnaire

O que mais ecoa sobre essa experiência foi o comprometimento dos Bonnaire com aquilo que falaram lá na horta. O compromisso com a palavra, com o convite, com o encontro. Não foi a primeira vez na viagem que notamos o quanto somos da “boca pra fora”, aqui no Brasil estamos perdendo cada vez mais o valor da nossa palavra. Combinamos por combinar, falamos para agradar… cumprir que é bom nada. “Vamos nos ver?”, “Vamos sair?”, “Pode deixar que te ajudo!”… em geral da boca pra fora. Ao redor do mundo é muito diferente, aprendemos o quanto a hora marcada é extremamente respeitada, o quanto os convites e compromissos são mesmo sérios e o quanto é estranho pra eles a necessidade de confirmação daquilo que foi agendado. Nossa dica: quando estiver viajando e for convidado para um compromisso, preste atenção no horário marcado e assuma o que foi acordado. Sempre é bacana levar um vinho ou flores, eles sempre fazem isso. Os estrangeiros quando tem um convite aceito, iniciam toda uma organização para o encontro e fazem o que tiver que ser feito para receber com carinho e requinte. Que vergonha seria se tivéssemos perdido o compromisso, como quase aconteceu. Ser da turma do dito pelo não dito não é a melhor coisa do mundo, é muito mais legal falar e cumprir… é muito mais fácil do que enrolar.

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Nós, a família Bonnaire e nosso amigo Marcos à direita

(obs: a região central da França é algo de outro mundo. Vale muito a visita, não é super conhecida aqui no Brasil mas é surpreendente em cada um de seus cantos)

Por Luah Galvão

va de trem EURAIL

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