A história hoje é sobre virilidade e fertilidade. Pra nem tudo nessa vida existe uma explicação…

Existe um certo tom de mistério que circunda o pequeno Templo chamado Inca Uyo, no igualmente pequeno povoado de Chucuito, próximo das margens do Titicaca.

Inca Uyo na língua nativa significa “Membro Viril do Inca” e o que se vê no espaço sagrado reflete exatamente seu nome. Lá emergem imponentes falos e mais falos eretos posicionados militarmente em diante do “falo-Rei” – enorme, detalhado, esculpido em pedra, exatamente no centro do templo. Diante do falo principal está a porta de entrada – a única abertura feita nos altos muros que conferem uma forma retangular ao espaço. Ao lado de fora da entrada, mais dois membros masculinos, posicionados como sentinelas-guardiões.

O curioso é que os falos de dentro do templo estão ora com suas cabeças para cima mirando o céu, ora para baixo, enterradas na terra. Dizem que os primeiros pedem pela chuva – escassa muitas vezes na região, enquanto os outros rogam por fertilidade.

Ao todo são mais de 90 falos eretos preenchendo a paisagem. Quanto ao “falo-Rei”, nos explicaram que muitos ritos em busca da fertilidade são feitos ali, conferindo um caráter de altar ao falo maior. Os casais com problema em gerar uma criança se dirigem ao local para os ritos de fertilidade. Levam consigo ervas, plantas (como a folha da coca) e extratos especiais (como a chicha) que despejam no centro da cabeça do falo buscando ajuda divina.

O mais interessante de toda essa história de fertilidade, virilidade, membros eretos e rituais é que até os dias de hoje a função exata de Inca Uyo não foi comprovada. Muitos acreditam que foi construído em sinal de agradecimento à Mãe-Terra (Pachamama para os nativos) – aquela que nos nutre e abastece em todos os sentidos.

Outros dizem que o local foi um centro astronômico, devido a localização do povoado de Chucuito. Hoje em dia atribui-se ao Inca Uyo, a função de templo destinado à fertilidade – um remédio para os casais estéreis. Mas ninguém garante a real função do espaço.

E o mistério segue, pois não é assegurado que Inca Uyo tenha sido realmente construído pelos Incas ou foi uma obra mais recente para chamar atenção do turista que está conhecendo a região.

O fato é que em todo 21 de Junho, que marca o solstício de inverno e data de enorme importância para o povo indígena, o templo lota de gente para louvar o espaço, rogando por fertilidade e abundância em todos os sentidos.

Mais um detalhe importante que quase me tirou o fôlego… ao lado de Inca Uyo está a igreja do povoado de Chucuito. Qual não foi meu assombro ao olhar para a torre da igreja e notar que alguns falos eretos enfeitam a construção ao redor do sino. Como assim?! A cultura indígena tão subjulgada e maltratada pelas forças da Santa Igreja agora adornam o espaço sagrado com falos nativos?! A igreja está se rendendo ao turismo ou esse é enfim um sinal dos novos e mais harmoniosos tempos?! Um marco para comunhão entre credos e povos?!

Do estranhamento, imediatamente tive uma sensação de otimismo… será que finalmente vamos entender que o divino abraça à todos, não importando quais ferramentas, símbolos ou signos nos conectem a ele?! Será que finalmente estaremos preparados para o convívio harmônico entre nossas crenças?! Se for isso, um brinde à Chucuito que de tão pequeno aos meus olhos fica grande. Independentemente das razões e funções para sua construção, que possamos sempre agradecer pela abundância, pela fertilidade da nossa Terra-Mãe e para a comunhão entre crenças e povos. Acho que já não há mais espaço para separação! E se assim for, manteremos o mistério, pois já não mais precisaremos encontrar as razões para templo algum.

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