Nem começo nem fim, foi no meio do Caminho que essa história aconteceu. Depois de caminharmos por semanas, chegamos ao ponto que divide o Caminho de Santiago ao meio geograficamente. E diferente de vários lugares com uma ótima vibe, chegamos a Sahagún, uma cidade com uma energia super estranha. Foi colocar os pés na cidade que eu e a Luah começamos a trombar um no outro literalmente, parecia que nosso equilíbrio havia sumido…

Perdemos momentaneamente o senso de direção e nossa natural vontade de explorar. Era domingo, havia muita gente nas ruas e uma enorme feira que cruzava a cidade. Nós também começamos a trombar com os outros e vice versa. A sensação é que estávamos em outro planeta. Ficamos super indecisos sobre onde comer, pois nada nos apetecia, todos os lugares pareciam estranhos apesar da nossa fome imensa. Comemos qualquer coisa em qualquer lugar e começamos desesperadamente a buscar um jeito de sair daquela cidade.

A ideia original era passarmos a noite lá, pois era uma das poucas cidades grandes ao longo do Caminho, além de sua importância histórica. Mas algo dentro diz nós disse: “Não fiquem, sigam em frente!”. Finalmente conseguimos sair da cidade… mas o próximo ponto de hospedagem seria a 10 km (Bercianos del Real Camino)!

Começamos a enfrentar retas intermináveis, o corpo já doía de cansaço, Sahagún parecia ter chupado nossa energia de canudinho. Tínhamos certeza que as placas indicando os quilômetros para Bercianos estavam tirando sarro da nossa cara, pois caminhávamos pelo que pareciam ser horas e sempre faltava muito a chegar. Os 10 km, pareciam 15 km, 20 km, 30 km… a Luah estava praticamente rastejando. Paramos para descansar muito pouco, estávamos loucos pra chegar, era TUDO que queríamos. Enfim, depois de um dos dias mais duros e maçantes, vislumbramos Bercianos, e já dentro da cidade caminhamos mais um bocado para chegar ao albergue. Pelo menos se podia sentir uma energia boa ao chegar nesse lugar. Por sorte ainda tinham camas disponíveis!

Depois de um bom banho, descobrimos que havia uma missa especial para peregrinos na cidadezinha e fomos conferir na tentativa de abstrair um pouco do nosso pesado dia. A missa foi ótima. Logo em seguida voltamos para o jantar (que funcionava por donativos, ou seja, cada um contribuía com o que tinha ou com o que achava justo). Aí nossa surpresa foi das boas. As voluntárias que estavam trabalhando no albergue, ao dizer o menu, começaram uma cantoria e até a fazer uns batuques ritmados na mesa. Em seguida entregaram uns papéis com a letra de uma paródia pra lá de cômica, usando como base a música “La bamba”, que contava todos os perrengues que os peregrinos tem que enfrentar na caminhada. Adivinha se eu e a Luah não fomos “pegos” para puxar a cantoria? Claro que sim! Mas achamos aquilo tão divertido e renovador para nosso pesado dia, que a dor no corpo passou na hora! A Luah que chegou moribunda no albergue, parecia ter renascido. Um casal de brasileiros filmou a cena! Felizmente temos a prova da nossa performance.

Ao longo do jantar percebemos um rosto familiar. Era o padre que havia rezado a missa da cidade, super jovem, sem sua batina, jantando informalmente entre os peregrinos! Ao final, ele convidou quem quisesse para uma celebração que faria voluntariamente em uma das salas do albergue. Sentamos todos em círculo, a celebração não era religiosa, pessoas de qualquer religião puderam participar. Falamos sobre amizade, amor e os aprendizados do Caminho para cada um. Tudo foi tão emocionante, que praticamente todos choraram de emoção.

Foi um dia longo, cheio de emoções, sensações distintas e surpresas, mas acabou muito bem! Sahagún não era mesmo o nosso ponto de parada naquele dia, valeu a pena o esforço extra de andar bem mais que o planejado para vivenciar essa experiência em Bercianos. Estar no lugar certo exige esforço, mas compensa! À noite o sono era tanto que nem ouvimos os roncos e ruídos dos companheiros de Caminho!

Ultreya!

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