Tinha a expectativa de que Cusco seria relativamente pacata, apesar saber que era uma grande cidade. Mas não é à toa que os Incas a consideravam “umbigo do mundo”. Dinâmica, movente e cheia de cores, a cidade foi centro administrativo e cultural de um dos povos mais misteriosos da América do Sul e por isso guarda até hoje múltiplos encantos.

Cusco atrai turistas de todo o mundo, mas o turismo excessivo fez desse centro inca um local por vezes incômodo, tamanha quantidade de serviços oferecidos a todo instante: acomodação, alimentação, tours, drinks, passeios, etc.

Nós sentimos isso na pele, mas depois de alguns dias acabamos nos acostumando e quase já não ouvíamos as interrupções enquanto caminhávamos pela cidade. O sorriso que acompanhava um “gracias” já se formava automaticamente no rosto a cada vez que nos ofereciam algo, e assim continuávamos a explorar cada canto e cada detalhe que chamava nossa atenção.

Um dos lugares mais interessantes que visitamos na cidade foi o Qorikancha (que em Qechua significa Templo Dourado, apesar de alguns dizerem que o nome original era Inti Kancha ou Templo do Sol). Independente do nome, esperávamos encontrar uma construção típica dos Incas, mas quando chegamos em frente ao lugar, parecia uma igreja católica. Mas era no interior que estava escondida a sua verdadeira essência Inca. Sob o teto do Convento de Santo Domingo – que foi construído pelos espanhóis exatamente em cima da construção Inca – estão as mais exatas e perfeitas construções Incas que vimos em toda a viagem. Os encaixes são incríveis, não deixam passar um fio de cabelo, cada pedra é cortada em geometria praticamente sagrada. A maioria tem formato de paralelepípedo, mas outras chegam a ter mais de 10 ângulos para compor janelas, portas, nichos e passagens. Do lado de fora há uma parede curva impressionante, que antes cercava a área onde estão templos Incas.

Comparei esse lugar à Hagia Sophia na Turquia. A Hagia Sophia é uma mescla de catedral e mesquita, onde estão misturados símbolos do islamismo e do cristianismo. Já no Qorikancha, os símbolos que foram sobrepostos ao longo da história são Incas e cristãos, esses, impostos pela dominação espanhola.

Explorando o interior com tantas influências, foi uma peça Inca, que estava em uma das paredes que estava a peça mais marcante: um painel dourado contendo o resumo cosmovisão dos Incas. Ali estavam representados o universo, o criador, a Pachamama (grande mãe Terra), o Sol, a Lua, o masculino, o feminino, os animais, as plantas, os rios e até o raio. Ficamos boquiabertos com a noção que tinham do universo e da vida na Terra.

Como o Templo Dourado é uma homenagem ao Sol, muitos acreditam que o Sol era um Deus para os Incas. Mas na verdade o tinham apenas como um elemento sagrado. Deus era para eles o criador de todo o universo, que incluía o próprio Sol.

Foi fascinante ver que os Incas, habitantes de áreas tão inóspitas e difíceis como os Andes, tinham tamanha sabedoria sobre o universo, astros e a própria vida na Terra. Sem contar o nível de requinte de uma arquitetura complexa e ousada. Eles chegaram a mover pedras de mais de 30 toneladas por quilômetros de distância, em uma geografia cheia de abismos e montanhas super íngremes.

Não importa como representemos nossas crenças no divino, todas as religiões devem ser livres para expressá-las. Os legados são aqueles deixados pelo esforço humano em compartilhar sua visão de mundo. O Qorikancha abriga duas visões, ambas com seu valor e seus complementos, pois a visão do todo é a soma de todas as partes!

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