Camilla é uma italiana com olhos vivos e alma livre. Um dia fez o Caminho e resolveu por lá ficar. Deixou sua vida na Itália, buscou por um lugar agradável em um “pueblo” rural e montou sua vida ali, bem na beira da estrada onde passam os peregrinos.

No início, 4 anos atrás, fez de sua casa um pequeno albergue. Como dava bastante trabalho para manter sozinha, decidiu mudar sua estratégia. Montou na frente de sua casa um pequeno recanto para peregrinos com uma mesa farta de sucos, frutas, bolachinhas, café, água fresca, alguns bancos e cadeiras. Tudo que oferece está sem preço. O que consumimos pagamos em forma de donativo. Cada um paga o quanto acha justo e se algum peregrino passar com fome e sem dinheiro, pode pegar também.

Seu recanto fica em Peruscallo – próximo à Sarria, uma etapa bem bonita do Caminho. Paramos por lá para refrescar na sombra do recanto e beber algo. Logo que sentamos, sai Camilla, tomando uma sopinha de ervilha na caneca. Uma calma de invejar; aquela que todos nós gostaríamos de alcançar.

Falou pra gente que estava muito feliz em sua vida rural. Quando decidiu mudar, não aguentava mais a vida urbana e as burocracias da Itália. E foi no interior da Espanha que achou o seu lar de paz e tranquilidade. Acorda todos os dias bem cedo e 7:00 da manhã já monta a mesa para os peregrinos, pois muitos param por lá para tomar café da manhã.

Camilla tem vários gatos e muito trabalho para fazer em sua casa, então lá pelas 3 da tarde desmonta a mesa para cuidar dos outros afazeres. Decidiu manter uma vida realmente rural, tanto que até hoje não trocou seu fogão à lenha por um elétrico. Disse que sua comida fica maravilhosa feita à moda antiga. Planta tomates e afirmou que faz um molho para macarronada de dar água na boca. Nos convidou para provarmos e prometemos lembrar do convite em uma próxima jornada…

Nos refrescamos, conversamos, rimos juntos… na hora de despedir comentou que precisava sair mais cedo naquele dia para comprar comida para os gatos. O dia anterior tinha sido feriado e ela não conseguiu achar nada aberto nas redondezas. Coincidentemente tínhamos uma farta lata de atum em nossa mochila – em todo caminho carregamos comidinhas na mala para prevenir qualquer aperto, lembramos da lata e oferecemos…

No início Camilla negou a ajuda, mas fizemos questão. “Você passa o dia ajudando e servindo peregrinos, agora é hora de ser ajudada. O Caminho é assim!!”. Ela nos deu um abraçou forte, daqueles bem gostosos e aceitou a ajuda…

São essas sincronicidades que fazem a mágica dessa jornada. Um dia é de quem dá, o outro de quem recebe. Em alguns dias o dar e receber andam de mãos dadas… Ou será sempre?!

Ultreya!!

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