Sim, somos animais gregários e cooperativos! E foi essa mais uma das lições que o Projeto “No Caminho de Compostela” nos proporcionou.

Não podia ser mais oportuno encontrar esse trecho em um dos livros de Mario Cortella:

“Nós não somos um animal que trouxe a competição como modo de vida. Aliás, se não fossemos um animal cooperativo, não teríamos sobrevivido. Somos um animal frágil, e a nossa fragilidade é tão grande que nós temos que viver juntos o tempo todo para termos a força.

Brasileiros “congregando”, festejando os primeiros jogos do Brasil na Copa.

Somos animais gregários. O radical greg, em indo-europeu, significa “rebanho”. Temos de viver em rebanho, não no sentido de indiferenciação e comportamento disperso, mas sim no sentido de “juntos”. Por causa do greg, é que a gente congrega, agrega…” | Não se desespere – provocações filosóficas

Esse australiano fazia o Caminho sozinho, passamos um dia
caminhando juntos, o ajudando com sua pesada bagagem.

Lemos esse texto na volta da nossa vivência nos mais de 800 km do Caminho e tenho que confessar: tudo o que está escrito fez muito sentido.

Quando nos aventuramos nessa longa jornada na figura de caminhantes ou peregrinos, muita coisa muda em nós. Os desafios são enormes, as incertezas ainda maiores, aliás, a única certeza comum entre todos é a necessidade de caminhar. Os trechos do Caminho de Santiago vão de montanhosos à absolutamente áridos, passando por trechos íngremes ou de pedras roliças até trechos longuíssimos sem estrutura alguma durante quilômetros. Ao lembrar que a grande maioria dos peregrinos parte sozinho, há que se levar em consideração que a solidão e o medo, para alguns, podem ser avassaladores. É nessa hora que entra o espírito do greg, da  congregação, da cooperação e do real sentido da união.

É muito, muito difícil completar a jornada em solidão absoluta. O ser humano, por essência, acaba se aproximando do outro, transformando assim a realidade e a aridez da aventura. Seja por um momento de falta de água, queda de resistência, por fome, exaustão, alguma torção ou solidão… em todos os momentos mais extremos, sempre alguém aparece para congregar e ajudar aquele que precisa. Vimos inúmeras cenas comoventes de auxílio, ajuda, comunhão e amorosidade. Não é à toa que amizades sólidas se constroem no Caminho, assim como muitos casais se apaixonam, outros casam e muitos passam a viver nas margens do trajeto montando pousadas, restaurantes ou serviços para os peregrinos.

Momento especial de celebração. Thiago (brasileiro na ponta da mesa) soube nesse dia que tinha passado em um super concurso. Várias nacionalidades festejaram juntas: Holanda, Itália, Japão, México, EUA, Espanha e Brasil.

No Caminho somos todos iguais, independente de raça, credo, cultura ou cor e realmente cooperamos o tempo todo uns com os outros. Congregar, agregar e cooperar são atitudes que muitas vezes esquecemos em nossos ambientes pessoal e profissional. O curioso é que parece que somos mais abertos e gregários quando saímos rumo ao desconhecido do que quando estamos na nossa zona de conforto. No nosso mundinho “conhecido” estamos acostumados aos egos e as estruturas pré-concebidas de mando e desmando.

No Caminho somos todos pessoas comuns, sem credenciais, sem títulos, sem diferenças nas contas bancárias ou escolaridade. Somos apenas andarilhos dotados de um mesmo objetivo, rumando apenas com uma pequena mochila nas costas. Por lá somos todos filhos de uma mesma Terra, não importando fronteiras ou sotaques. Lavamos nossas roupas, nossos pratos, arrumamos nossa cama, convivemos com cãibras, bolhas e dores por todo o corpo, ao mesmo tempo em que experienciamos de fato a mais bela relação com a natureza e temos um dos maiores aprendizados de convivência, cooperação e solidariedade que se pode existir. Os peregrinos aprendem a se comunicar com o olhar, com os gestos e com o coração. Sul coreanos praticam o greg com finlandeses, mexicanos com franceses, brasileiros com alemães numa comunhão em que a língua nativa é o que menos importa, o que conta mesmo são os apertos de mão, os abraços apertados e a união de todos os caminhantes em prol ao objetivo comum: chegar até Santiago e ter a possibilidade de transmutar ações e sentimentos ao longo da jornada.

Quando Cortella assume que somos animais gregários, concordo plenamente e posso garantir que o Caminho de Santiago é uma das melhores vias para se praticar isso em lato sensu.

E que o final do ano amplie o sentido real de todos os radicais de greg e que todos nós, peregrinos de Santiago ou caminhantes da vida, possamos agregar e congregar de verdade!

Por Luah Galvão

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