Fiquei pensando esses dias se deveria ou não escrever esse post, mas quando a gente recebe uma graça, acho que vale a pena compartilhar.

Faltava um mês para a viagem e comecei a sentir uma dor horrível no ciático. A dor era tanta que sentar era ruim, caminhar pior, impossível agachar, até para dormir estava incômodo. Meu ciático só tinha gritado uma vez na vida, em um momento do mochilão Volta ao Mundo quando por vacilo, insisti em carregar mais peso do que deveria. Até então, não tive mais nada.

Ainda não sei porque, dessa vez ele voltou a apitar. Apitar, não, gritar! Suspendi todos os esforços físicos mas ao invés de melhorar a dor foi piorando, comprometendo outras partes do corpo. Nem levantar os braços estava moleza.

Uma semana antes do embarque resolvi ir ao hospital. Me bombardearam de injeções e remédios e deram 48 horas para ficar boa. “Se a dor não melhorar, você vai sofrer infinitamente mais na altitude, melhor cancelar a viagem.” – disse o médico.

Imaginem minha alegria com ao ouvir o doutor… resolvi pensar positivo e aguardar o tempo indicado! Passaram-se 48, 72, mais algumas horas e nada. Suspendi os remédios e tentei um tratamento alternativo: acupuntura, mosha, ventosa, tudo.

Dia da viagem e a dor ainda estava lá. Meu espírito guerreiro não me deixou desistir. No voo muita dor, nos 2 primeiros dias em Lima muita dor também. Apesar da cara feliz nas fotos, o corpo estava sofrendo! Até que no final do segundo dia, ainda em Lima, dois fatos interessantes aconteceram…

Estávamos visitando o Convento de Santo Domingo quando entramos em uma sala que me chamou atenção. Vi uma cesta antiga, super gasta, um pilar imenso de madeira talhada, alguns objetos e uma foto na parede. Não sei porque, senti uma energia especial naquele ambiente. Quando o guia nos explicou sobre o personagem do quadro, aquele era San Juan Macías, conhecido também como protetor dos Caminhantes. De origem espanhola, Macías era um homem muito simples, guiado por sua fé atravessou o oceano vindo parar na América. Viajou milhares de quilômetros de Cartagena a Lima, ora caminhando, ora em mulas, em pequenas embarcações ou caminhando novamente. Ficou conhecido por suas andanças e quando chegou ao Perú decidiu que aquele era seu lugar.

Me emocionei com a história, anotei o seu nome no meu cardeninho e na saída busquei por uma medalhinha do Santo. Para minha sorte consegui a última da lojinha anexa ao convento. Á partir desse dia resolvi levá-la comigo pra onde quer que fosse. Mentalizei para que ajudasse no meu caminho, suavizando minhas dores. Meu medo era o embarque para Cusco no dia seguinte, onde já estaríamos a 3400 m de altitude.

Andamos mais um pouco e entramos na Basílica de La Merced, mais uma vez algo me chamou a atenção… Muitas pessoas estavam em volta de uma grande cruz prateada, calmamente cada um se dirigia até ela para tocá-la em atitude de devoção. Milhares de corações prateados estavam pendurados ao redor da cruz. Perguntei o significado de tudo aquilo e um senhor tranquilamente me respondeu “Essa é a famosa cruz milagrosa de Frei Pedro Urraca. Muitas pessoas peregrinam até aqui em busca de um milagre e quando alcançam voltam para pendurar esses corações ao redor”.

Não tive dúvidas. Esperei meu momento, me dirigi ao milagroso objeto e do fundo do coração pedi ajuda em minha dor. Mais uma vez me emocionei. Os que me conhecem sabem que como boa espiritualista que sou, não tenho grandes devoções religiosas. Acredito em muitas coisas e tenho meu sincretismo religioso pessoal que muito se nutre do próprio poder da natureza. Por outro lado, respeito imensamente as divindades, ritos e deidades alheios, tendo um apreço especial por tudo que é considerado divino.

E fiz uma promessa. Caso ficasse boa faria uma tatuagem daquele coração, uma vez que seria muito difícil voltar à Lima para colocá-lo lá. Contei para o Danilo que estranhou meu acordo celestial. Mas o acordo estava feito e o mais importante, era de coração.

No dia seguinte arrumamos nossas coisas para embarcar para Cusco. Correria. Aeroporto. Voo. Chegada a Cusco. Organização das coisas. Saída para uma volta. Só no final da noite havia percebido que minha não tinha mais dor. NENHUMA!! Zero! Me sentia normal novamente. Decidi não comemorar ainda e esperar a reação do meu organismo na altitude nos próximos dias.

Tour, agitação, ladeiras, caminhadas, altitude e NADA!! Nada… Lembrei da medalha de San Juan Macías, que segue caminhando comigo e da cruz do Frei Urraca. Agradeci! Senti uma gratidão profunda! Parece história de pescador mas é o mais verdadeiro relato.

Podem ser os efeitos retardatários dos medicamos e do tratamento alternativo? Podem! Mas não posso esquecer a emoção que senti diante de San Juan Macías e a verdade com que fiz minha promessa diante da cruz de Urraca. A tatuagem está prometida! Vai ser uma das primeiras coisas que farei na volta ao Brasil.

E para os futuros caminhantes, seja para onde for, não custa levar uma medalhinha do seu protetor. Seja quem ou o que for! Aos que ainda não tem um “padrinho”, o protetor dos Caminhantes me pareceu combinar demais com viajantes e aventureiros.

E que possamos seguir tendo fé na vida! Meu sentimento é de gratidão!

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