Luah Galvao e Danilo Espana

Cabeça de Viajante … Um belo dia você acorda e sente que não é mais a mesma pessoa de antes do embarque; aquela que tem as rédeas da sua própria cabeça! Um sorrisinho de canto de boca surge sem pedir licença e ops, a hora que a gente percebe o “Ser Viajante” está no controle da situação.

A cabeça que até dias antes estava acostumada a ser dividida em múltiplas gavetas para dar conta das múltiplas tarefas: trabalho, contas, família, amigos, compras, gastos, chefe, trânsito, reuniões e muitas gavetas de blá, blá, blás, parece que vai se tornado menos fragmentada, e ao invés de i-nú-me-ras ga-ve-ti-nhas, a cabeça vai dispensando o inútil e centrando bala naquilo que é realmente útil.

A cabeça de viajante aos poucos vai virando um grande celeiro de ideias férteis, tão férteis que muitas vezes rola um cansaço. Os 5 sentidos estão todos à disposição da experiência e do aqui e agora. Parece que a cabeça bebe de canudinho tudo o que acontece ao redor no vasto mundo desconhecido; por onde os viajantes gostam de transitar.

A cabeça do viajante vai se tornando mais flexível a cada novo destino, absorvendo cultura, crença, cor, cheiros e a cada nova língua em contato, novas palavrinhas passam a circular no HD central – nem que apenas “bom dia”, “obrigada” e “por favor”, nas mais diversas línguas e dialetos. Essas palavras que quebram o gelo das relações intercontinentais, todos os viajantes guardam rapidamente.

O Ser viajante só fica ligado ao tempo quando é dia de vôo ou de grandes deslocamentos de trem, ônibus ou barco. Até porque para o viajante que é viajante, perder qualquer um dos transportes representa um belo furo no orçamento e se acontecer, vai ser lembrado com sofrimento por um bommm tempo..

Luah galvao aeroporto

Correndo pra não perder o vôo …

Não existe mais o pacote tradiconal de café da manhã, almoço e janta sendo conduzidos cartesianamente pelo racional. Como já disse, para o viajante a “hora” é fulgaz e não faz mais parte ditatorial da rotina do Ser da estrada. Viajante come quando dá fome ou quando encontra uma comida barata ou uma turma bacana fazendo uma refeição ou simplesmente quando encontra comida mesmo, pois muitos dos lugares numa expedição não são tãoooo facinhos no quesito alimentação. E viva a Ásia com seus múltiplos insetos fritos!!

jantar em guili trawangan

Parada pra uma boquinha com amigos ingleses e brasileiros numa feira na ilhota de Guili Trawangan

A cabeça do viajante não sabe a diferença entre uma segunda ou um domingo, uma terça a tarde ou sexta de madrugada, um feriado nacional no Laos ou a independência do Brasil. A agenda muda e vira caderno de lembranças e o calendário é algo pra… pra que mesmo?! Pra saber o dia dos vôos ou deslocamentos importantes.

Na cabeça do viajante os cabelos vão crescendo, crescendo, se emaranhando, transformando. Quem saiu lá pra trás não é mais aquele que se vê no espelho depois de um tempo de viagem. Esse é apenas o reflexo do novo Ser que antes de se manifestar, já havia nascido lá dentro. Se o cabelo não emaranha, então ele vira carta fora do baralho: homens raspam a cabeleira e mulheres cortam as madeixas. Aqueles que ficam cabeludos, mostram o tempo da viagem nessas molduras do rosto. O que todos os viajantes tem em comum: todos mudam.

cortando cabelo

Danilo cortando o cabelo num “SPA” do Vietnã … medaaa

A cabeça de viajante vira um conversor de moedas. Até as cabeças mais pobres em matemática, transitam super bem nas contas sem o uso de calculadora. Todas sabem direitinho o poder dos descontos e o quanto o acúmulo deles ajuda a aumentar a viagem. Falando nisso, todos viram mestres em economia pois o foco não está em esbanjar e sim economizar o máximo para estender ao máximo a viagem.

Pra cabeça do viajante a família, aquela de raíz, está e sempre estará lá no lugar da partida e dentro do coração, mas outras famílias ao longo do tempo vão entrar no contexto. O viajante adota e é adotado, e vai fazendo famílias por onde passa. Famílias cuja saudade sempre vai existir pois naquele momento-tempo-espaço fizeram seus papéis de pai-mãe-irmãos-avós. A família marroquina, indiana, italiana, mexicana, todas entrarão para os porta-retratos do futuro. E os amigos?! Ah, os amigos – aqueles de raíz, assim como as famílias, sempre estarão em seus lugares dentro do peito. Mas novos amigos vão surgir: aquele chinês estudante, o jornaleiro da Argentina, a mestra de mil histórias da Guatemala, o casal de Camboriú. E os amigos do meio do caminho, tal e qual os de raíz, também vão ter a sua importância, seu significado e também ocuparão os porta-retratos do futuro. Muitos, na cabeça do viajante, serão amigos para sempre por mais que a vida nunca mais os encontre.

senhor

A pergunta “O que te motiva?” gerou um papo delicioso de 1 hora com Hector, um argentino de tirar o chapéu …

Cabeça de viajante esquece o que é preconceito, política, religião, moda, fuso horário, complicação. Cabeça de viajante é arejada, leve, sem fronteiras ou limites. O sonho é o que move, o desconhecido o que nutre. Nada mais faz sentido além do aqui e agora, em todo o seu esplendor. Salvo quando existe algum vôo marcado ou grande deslocamento…

(Esse post é uma homenagem a todos os viajantes que conhecemos antes, durante e depois da viagem. Pessoas que vão estar sempre guardadas não só em nossos porta-retratos, como em nossos corações!!)

Por Luah Galvão

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