Foi sensacional nossa passagem pela comunidade dos Uros, que durante séculos vive em pequenas ilhas flutuantes no Lago Titicaca. A vida em uma ilha parece romântica, mas as dificuldades são bem maiores do que parecem…

E tudo começa com a “totora”, uma planta aquática de raízes flutuantes cujos talos podem medir até 3 metros. A espécie vive livre, leve e solta em uma região do lago Titicaca e que quando seca, serve para muitas coisas, entre elas, a construção de embarcações e casas.

Em determinada época da história, os Aymaras – etnia proveniente da parte do lago que hoje pertence a Bolívia, estavam estendendo seu poderio e queriam submeter os Uros – nativos da região do Titicaca hoje no Perú, à sua cultura. Mas seus quase vizinhos, que sempre viveram pacificamente e não queriam ser dominados, fugiram em suas canoas feitas de totora para dentro do Lago. Ao contrário dos Aymaras, dominavam a manufatura dessas embarcações e também sabiam que as plantas de totora eram bastante altas, podendo servir como esconderijo. Diversas famílias conseguiram fugir e esconderam suas embarcações nesse imenso jardim de totoras.

Foi assim, em uma rota de fuga, que os Uros iniciaram sua longa jornada aprendendo a viver “na água”. Como os barcos não duravam mais do que 7 meses, precisaram pesquisar alternativas para essa vida longe do continente. Descobriram que a sobreposição da totora sobre suas raízes flutuantes, formava uma espécie de piso compacto que aguentava não só a permanência deles, como a construção de estruturas para a moradia. As poucos foram desenvolvendo pequenas casas, cozinha comunitária, armazém, etc, para abrigar as diversas famílias.

Passaram a viver essencialmente da pesca e criar todo um estilo de vida particular e preservado durante muitos séculos. Mas a história não é tão simples assim… o piso de totora seca muito rápido, ainda mais com o sol escaldante da região. A planta em pouco tempo vira palha e em seguida pó. De 20 em 20 dias, as famílias precisam cortar e sobrepor mais totora em todo o piso das ilhas, ao contrário, começam alagar. E as dificuldades não param por aí, como vivem muito próximos a água a maioria dos Uros tem problemas seríssimos reumatismo, não vivendo muito mais do que 65 anos.

E as ilhas se movimentam pelo Lago? Essa era uma dúvida que eu tinha, mas não, todas são ancoradas, tem localização específia e nome. A que visitamos se chamava Suma Kurmi – bonito arco-íris. Curiosamente, por 2 soles, as ilhas carimbam o passaporte dos turistas que passam por lá. Não aguentei e carimbei o meu!

Faz mais ou menos 25 anos que essas ilhas viraram pontos turísticos e passaram a se organizar para receber turistas do mundo todo. Com o ingresso de recursos, muitos deixaram a vida flutuante para viver no continente. Alguns passam o dia nas ilhas trabalhando com o turismo e regressam ao final do dia para suas casas. Hoje, apenas 35% das ilhas ainda vivem em estado primitivo e são habitadas, mas percebemos que o sonho comum de seus moradores é um dia juntar dinheiro para viver na cidade grande. Percebemos que a vida “flutuante” é uma enorme labuta e talvez a palavra que melhor descreva essa experiência de viver seja resiliência.

(O assunto das Ilhas flutuantes é super interessante e ainda tem muito a ser dito, então paramos hoje por aqui. Nos próximos posts: como se alimentam, como é a higiene, como se organizam politicamente, do que vivem, como é a estrutura familiar, como se medicam, estudam?! A vida por lá é mesmo muito diferente…)

No Comment

Comments are closed.

You may also like