Essa semana em um workshop, contamos uma das histórias da nossa Volta ao Mundo que mais nos tocam. Sempre que lembramos de Luang Prabang nos emocionamos. Deu vontade de compartilhar novamente por aqui…

Cinco da manhã nas ruas de Luang Prabang, uma pequena névoa ronda o povoado. As águas do grande Rio Mekong, que contorna a cidade, evaporam rapidamente com a chegada do sol, sempre firme e forte por aquelas bandas. A pequena cidade no interior do Laos desperta. O alvoroço começa logo cedo, um alvoroço silencioso, respeitoso, se é que posso denominar assim…

A comunidade se levanta da cama sem preguiça, pois antes da vida começar existe algo que une a todos, que unifica a cidade através da generosidade, bondade, harmonia e fé. É hora do religare, de ligar-se ao grande círculo virtuoso chamado “Cerimônia das Almas”. É hora da população doar comida e sustento para monges e noviços dos inúmeros templos budistas do povoado, garantindo assim o alimento daqueles que tanto zelam pelo equilíbrio da sociedade e da natureza. São centenas de meninos, moços e senhores que foram para os templos por vocação ou por necessidade e que tem como ponto comum seguir o iluminado caminho de Buda, mantendo vivos seus fundamentos e práticas. Conhecemos muitos noviços que chegaram aos templos ainda crianças, foram enviados por seus pais com a esperança de garantir educação, alimento e um teto para morar. Como o Laos é muito pobre, diversas famílias vêem nos templos budistas uma salvação para parte de sua prole.

Próximo das 6 da manhã a cidade já está toda preparada para a cerimônia. Pequenos tapetinhos coloridos são colocados nas calçadas para que a população possa se acomodar. O mercado ambulante vende potinhos de sticky rice – um arroz super típico que é base da alimentação asiática, assim como alguns bolos doces e bolinhos salgados feitos de legumes e vegetais. Quem não pode preparar algum alimento em casa pode se valer desse “mercado” e ajudar, os turistas também assim se abastecem.

Eis que surgem no horizonte os primeiros monges de uma fila gigante de centenas que estão por vir. Com suas cabeças raspadas, vestindo túnicas de cor laranja, saem de seus templos caminhando em uma silenciosa procissão pelas principais ruas da cidade. Levam em suas mãos cumbucas metálicas; recipientes tradicionais onde recebem o alimento que terá que durar para todo o dia. Como de costume, os templos não podem comprar comida e sim recebê-la em forma de doação. Se não houver doação, não há alimento. É por essa razão que a comunidade se junta todas as manhãs para alimentar o corpo físico dos monges, através da comida e o espírito, através da generosidade e do amor. E a benfeitoria não para por aí, não são apenas monges e noviços que se beneficiam daquilo que foi arrecadado, grande parte das doações é separada para alimentar inúmeras crianças carentes de toda a região.

Durante o cortejo o silêncio impera nas ruas, mesmo abarrotadas de gente. A ordem é não tocar nos noviços e monges, olhar com respeito e doar a comida que foi levada com parcimônia para que todos da fila sejam contemplados.

Sou uma pessoa que detesta acordar cedo demais, mas no dia em que participamos da cerimônia, minha alma despertou feliz e o rito fez triplicar a minha energia vital. Foi demais ver a devoção da população, que em “estado de graça” e em colaboração, fazia suas doações matinais, ver o semblante de felicidade daqueles que mesmo vindos de longe se aglomeravam para ver a fila laranja passar. Mágico, especial. Foi um presente estar ali.

Por volta das 7 e pouco da manhã o dia já estava claro e a dispersão começou. As pessoas calmamente voltaram para suas casas, trabalho ou hotéis. Nas ruas, um rastro de crianças correndo felizes, mostravam umas às outras o que haviam recebido dos monges. Crianças com pouca vestimenta, com traços claros de pobreza mas que pela alegria deixavam claro que a fome não era mais algo a temer. A generosidade e o amor tinham provido sustento para mais aquele dia. Às 8 os templos já tinham sua reserva de alimento assim como diversas famílias carentes através de suas crianças. A comunidade já tinha praticado seu rito matinal gerador de alegria e harmonia e nós turistas, encantados, tínhamos passado uma das experiências mais lindas e ricas de nossas vidas.

Luang Prabang foi um lugar que mudou minha cabeça e meu jeito de encarar a vida, sinto muita gratidão por isso. Acabamos ficando 22 dias nesse povoado que nenhum turista passa mais de 4 ou 5. Quando saímos de lá parte do meu coração ficou na cidade. Pegamos um barco rumo a Tailândia que subiu o Rio Mekong por 2 dias, tempo para digerir parte da experiência do lugar que vive todos os dias o AMOR em amplo sentido. Agora de volta ao Brasil, me pego nostálgica diversas vezes pensando em Luang Prabang… lembrando dos cântidos de meditação ecoando dos templos todo final de tarde, dos cumes dourados das construções reluzindo ao por do sol, da natureza abundante e tão bem cuidada, das inúmeras crianças sempre com um sorriso no rosto. Quero um dia voltar e seguir o aprendizado sobre a arte de viver e amar em abundância.

É gente, quando nos juntamos através do amor e da abundância podemos gerar ciclos virtuosos dentro de nossas casas, na nossa vizinhança, cidade, em nosso país e até no mundo que vivemos… por que não?!

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