“Paciência e perseverança tem o efeito mágico de fazer as dificuldades desaparecerem e os obstáculos sumirem.”

Essa frase é do ex-presidente americano John Quincy Adams, que governou a América entre 1825 e 1829, e me parece perfeita para descrever o fenômeno de superação encarado por todos os peregrinos do Caminho de Santiago.

A superação pode ser entendida como ultrapassar um limite, ir além, enfrentar um desafio ou o ato de progredir. Seja qual for o sentido, a superação é pilar da grande travessia até Santiago de Compostela, jornada que realmente faz com que a gente ultrapasse nossos limites no plano físico, mental, espiritual, comportamental ou em todos os planos ao mesmo tempo. A maravilha dessa experiência é que todos voltam de lá mais fortes. Não é à toa que escolhemos a superação como tema do segundo projeto do Walk and Talk.

De cara as enormes montanhas presentes nas primeiras etapas do Caminho Francês assustam. Mal dormi na noite anterior à largada. Achava que não seria capaz de completar o primeiro dia. Foram 27,5 km de subidas e descidas íngremes que só encarei depois que outro peregrino disse que aos 67 anos  já havia feito o Caminho 14 vezes. Foi animador ao mesmo tempo constrangedor. E se eu não conseguisse?! Mas no final daquela tarde, apesar da dor que latejava por todos os cantos, eu estava ali; FELIZ, na cidade base da primeira etapa!! Havia conseguido superar meus medos, ansiedades e meu próprio corpo desacostumado de tanta sobrecarga.

Não levar nada além do essencial foi mais um episódio interessante de superação. Durante a Volta ao Mundo já havia desapegado de muita coisa, mas dessa vez foi demais: só podia levar na mochila 10% do peso do meu corpo. No Caminho só levamos o suprassumo, o imprescindível, qualquer kg extra e tchau para nossa coluna e joelhos. Viver 2 meses com apenas 6 quilos e pouco foi o ponto de maior superação material e comportamental da travessia. Mas como o Caminho não é um desfile de moda, foi uma ótima experiência para rever os excessos carregados na vida. 

Dividir quarto, banheiro, a mesa das refeições. Sobreviver aos roncos. Ter que lavar as roupas todos os dias e sair com aquelas que não secaram penduradas na mochila. Ter que levantar quando o sono ainda é enorme. Caminhar quando o corpo quer parar. Sentir dor. Tentar vaga em uma cidade lotada após um dia exaustivo de caminhada. Ter fome no meio do nada. Sede no meio do nada. Dividir a água. Dividir o pão. Sentir tédio nas retas infinitas. Sentir saudade. A superação que nos primeiros dias recai sobre o corpo, com o passar do tempo passa para a mente e o espírito. Controlar a cabeça e focar na travessia para garantir não abandonar tudo e voltar pra casa no meio da jornada também fazem parte da arte de superar os limites, transformando o que parece ruim em experiências positivas. A sorte é que nós, seres humanos, temos habilidade para adaptação e transformação sempre que necessário. E comigo não foi diferente…

Superando limites ao subir 1600 metros de altitude em um dia de muita chuva!

Por lá a superação é uma constante. Um exercício diário de auto-confiança, prudência, perseverança, generosidade e de amor consigo e com o outro. Cheguei à conclusão que quando superamos nossos próprios limites ficamos mais fortes, mais livres, mais inteiros. Em todo e qualquer processo de superação os benefícios são enormes e por mais que a ação de ultrapassar um limite comece do lado fora, no fundo estamos transformando nosso íntimo.

Parece que John Adams estava mesmo certo! Quando somos perseverantes os obstáculos e dificuldades, sejam quais forem, pouco a pouco desaparecem como mágica, dando lugar à uma enorme sensação de satisfação e dever cumprido. Foi isso que senti quando finalmente concluí os 800 km da jornada e ingressei durante a madrugada na cidade de Santiago de Compostela. Que experiência!! Foram muitos dias de percurso onde consegui olhar para as dificuldades que surgiram como grandes e ricos aprendizados. Naquela madrugada o corpo estava exausto, mas faria tudo de novo.

Chegada em Santiago de Compostela no meio da madrugada

Por Luah Galvão

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