Essaouira - Marrocos Cooperativa de óleo de Argan

Por séculos, o óleo de Argan, conhecido como “Ouro Líquido”, tem sido produzido pelas mulheres berberes, do Marrocos. Hoje, esse pequeno tesouro natural segue sua produção de um modo mais organizado por meio de cooperativas femininas no sudoeste do país. Estávamos viajando com um casal de italianos quando caímos dentro de uma dessas cooperativas chamada “Cooperative Marjana de Femmes”. O passeio acabou sendo uma surpresa bem interessante em nossa passagem pela região de Essaouira, a famosa cidade azul do litoral marroquino.

Walk and Talk Marrocos

Fruto do Argan

A cooperativa Marjana fica em uma região rodeada por árvores de Argan (Argan Spinosa), super típica desse deserto, facilitando assim o trabalho de colheita dos frutos. Mas é na hora da extração do óleo que a coisa pega: são necessários em média 100 kg de sementes para a produção de 1 litro do produto. É por isso que, além de todos os benefícios para a saúde que o óleo de Argan traz, tudo que o contém acaba saindo uma pequena fortuna. Desde produtos de beleza, passando pelos medicinais, azeites para a cozinha ou alimentos feitos com seu extrato, tudo realmente tem “preço de ouro”. Mas por trás do produto em si, existem histórias interessantes.

cooperative dargan marjana

As cooperativas da região são formadas por mulheres, em sua maioria viúvas ou divorciadas que, por meio desse trabalho cooperado, garantem o sustento de suas famílias. Os espaços acabam funcionando também como berçários ou escolinhas ajudando no cuidado com os filhos das cooperadas, muitos ainda possuem alojamentos para que elas possam viver e trabalhar no mesmo local, facilitando o dia a dia.

O interessante da experiência por lá foi perceber a integração das mulheres de diversas gerações convivendo numa harmonia fácil de notar. As mais novas sempre em atitude de respeito com as anciãs do grupo. Enquanto trabalhavam, as mulheres conversavam sobre suas vidas, riam juntas e se ajudavam. A cooperativa se traduz em amplo sentido. De acordo com seus talentos e o que fazem bem, as cooperadas se revezam na extração do óleo, confecção dos produtos, no refeitório, na loja, no cuidado com o espaço, na recepção dos turistas… Para mulheres, que muitas vezes passaram a vida em lugares isolados em meio ao deserto marroquino, participar de um sistema colaborativo e cooperativo traz uma nova visão de mundo e gera novas perspectivas de vida.

cooperativa de oleo de argan no marrocos

O Marrocos é um país onde a mulher em determinadas regiões ainda fica restrita às funções do lar e criação dos filhos, não tendo a menor ideia de como é a relação com o trabalho, produto, equipe e acaba não tendo contato com pessoas de outros lugares do mundo. As divorciadas, em muitos casos, sofrem preconceito e acabam vivendo à margem de seu clã. Diante desses dois cenários, as cooperativas trazem uma nova luz a essa realidade.

 luah galvão marrocos walk and talk

Tivemos uma conversa bem interessante com a tradutora  que nos guiou pelo espaço. Não me lembro de seu nome, mas a moça que tinha por volta dos seus 20 anos, prestava um serviço de suporte para a comunidade e, no meio do nosso papo, questionamos sobre a submissão das mulheres marroquinas em relação aos homens, em especial aos maridos. A jovem nos respondeu que gostava da submissão, achava ótima essa relação. Assim, não precisava se preocupar com dinheiro, trabalho, sustento, decisões, nada… “Ele decide e ponto!” e emenda dizendo que tinha orgulho dessa cultura. Para ela, isso não era um problema. “Vocês de fora é que veem problema nisso, nós não”.  E segue dizendo que tinha pena de nós mulheres ocidentais que, além de trabalhar como os homens, ainda tínhamos que provar nossas capacidades o tempo todo. “De um jeito ou de outro consigo tudo o que quero do meu marido. E vocês, conseguem?!”, perguntou sorrindo para mim e para minha amiga italiana. Saia justa! Todos nós começamos a rir, incluindo nossos maridos. Se as outras marroquinas do recinto estavam entendendo ou não o que falávamos, não sei, mas de repente toda a sala estava ecoando risadas femininas.

Walk and Talk na cooperativa de oléo de Argan

Nossa tradutora, eu e Massi (nosso amigo italiano)

Depois dessa, não questionamos mais o uso dos véus, das burcas, da relação entre os casais muçulmanos, nada… Cada um tem mesmo sua cultura e suas crenças, que são bases intrínsecas de nossa formação. O negócio é mesmo um entender o outro. O óleo de Argan nos atraiu por seus atributos como produto, mas a experiência na cooperativa teve um valor muito maior do que o próprio ouro líquido.

Walk and Talk em Essaouira

Claudia e Massi nosso casal de amigos italianos. A visita acaba com o típico chá marroquino.

Por Luah Galvão | Fotos Danilo España

Vale a pena dar uma olhada também na nossa última matéria sobre o Laos “Cerimônia das Almas no Laos: um grande círculo virtuoso”

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