Não conhecia Istambul até pouco tempo atrás e afirmo que tive que sucumbir por qualquer opinião anteriormente formada. Degustar essa cidade bi continental teve um sabor único, passei dias de êxtase absoluto, chego a dizer que Istambul tenha um certo toque afrodisíaco latente em tudo o que se vê, que se ouve, que se sente. Ter a noção de que nossos cinco sentidos realmente funcionam é algo surpreendente !

Primeiro vieram os sons dos minaretes que espalhados por todos os cantos ecoam o canto das Mesquitas. Um som entoado com a alma de uma religião forte que reverencia Allah (Deus único, sem plural, feminino ou masculino) 5 vezes ao dia.
O chamamento para a reza toma conta da cidade e também de nossos corações, independente da religião que seguimos. Não fui a única em estado de encantamento, nos inebriamos com o cântico, cuja letra a nós incompreensível invadiu nossas almas como magia.

Istambul é a “Pátria” dos Romãs, fruta símbolo da fertilidade e abundância, fruta do mito grego: “Os pomos de Ouro do Jardim das Espérides” (um dos 12 trabalhos de Hércules).
Provei romãs gigantes, vermelhos, cheios de suco e sementes …, que espalhados por todo aquele Paraiso, uniam-se às maçãs, “o fruto proibido” para serem transformados em suco, um néctar de Allah, diretamente das tendas turcas para as bocas sedentas.

Tive o prazer de conhecer o Hodja Pasha, hoje teatro que acomoda o grupo sufi “Galata Dervishes”, construção de 550 anos palco de um dos inúmeros banhos turcos em funcionamento até 1988. Em seu interior circular, de paredes largas e tijolos aparentes, assisti ao espetáculo Dervishe: homens fortes e sensíveis ao mesmo tempo, ornados com saias flutuantes que através de rodopios 360 graus, buscavam o silêncio e a conexão com Deus transportando a platéia, à um silêncio divinizado, “éter” para minha alma.

Istambul é fonte latente de história, cidade palco do beijo entre o oriente e ocidente.
Num passeio palo Bósforo pode-se sentir esse esplendor, essa magnitude geográfica. De braços abertos no barco senti tocar os 2 continentes com minhas próprias mãos, enquanto o vento forte e gélido do canal batia em meu rosto.

Não posso deixar de comentar sobre o “aroma” de Istambul … a cidade queima espigas de milho e castanhas em diversas barracas de rua, produzindo um aroma forte, com identidade única. Impossível passear sem voltar com as roupas marcadas por esse aroma “turco”. Sem contar todas as especiarias que são encontradas à venda ou nas deliciosas comidas: açafrão, pimenta, cardamomo, anís, hortelã, zátar, cravo, canela … pitadas de alquimia na dualidade gastronomica meriterrâneo-oriental. Mais uma vez, meu olfato sucumbe ao éden geografico progenitor de tanta abundância. Quase perdi o folêgo … melhor mudar de assunto, minha boca começa a salivar.

O lado arquitetônico da cidade também mexeu profundamente com os meus 5 sentidos ! Azulejos, berloques, curvas, traços mouros … bizantinos, muito ouro, riqueza e abundância marcam a dourada Istambul.
Mesquita Azul, um clássico arquitetônico Otomano, tem esse nome pois realmente representa uma imansidão azul, um mar em flor. Seu interior gigantesco é envolto por um ar romântico hospedando florais azuis de todos os padrões, pintados em azulejos e mosaicos, um retrato da harmonia dos típicos ornamentos islâmicos que nos remetem à perfeição do divino.
Por respeito os sapatos são deixados ao entrar, e nossos pés passam a pisar sobre tapetes confortáveis, também floridos, passarela de um mundo globalizado com gente do mundo todo e todas as religiões a apreciar seu interior.

Um parentesis: a Mesquita Azul contruida no sec XVII é a única em Istambul com 6 minaretes, uma excentricidade do Sultão Ahmet no momento de sua “encomenda”.

Construida no sec VI pelo Imperador Justiniano reina até os dias de hoje Hagia Sophia. Diferente da Mesquita Azul é um templo de mistérios. Passou pela história da civilização humana sendo sede da religião Cristã e depois Islâmica. Por respeito ou possível temor aos desenhos cristãos, suas imagens não foram destruidas nem apagadas, foram cobertas por camadas de tinta e hoje reveladas aos nossos olhos. Mais uma vez somos cúmplices do beijo entre oriente e ocidente, curiosamente dentro de um “templo” religioso. As insígnias Islâmicas avizinham-se aos Santos e ícones cristãos, num cruzamento religioso que só através da transformação da mesquita em museu poderiam conviver sob o mesmo teto.

Não há como negar a sensação opressora de Hagia Sophia, tanto pelo seu tamanho colossal como pela pouca luz de seu interior. Um ar taciturno nos abraça e transporta para séculos e séculos anteriores. O que acontece dezenas de vezes ao entrarmos em outros marcos arquitetônicos e culturais da dourada cidade. Não há como deixar de viajar no tempo entrando na Cisterna e nos mercados turcos, nas ruelas de paralelepipedo que cortam a cidade.

Não há como não perceber a passagem do tempo atravessando po entre vielas, admirando portas e janelas seculares ainda preservadas nas casas e comércios. A história ecoa na velha Istambul, de ouvidos atentos podemos escutar as lendas e vozes da antiga cidade clamando por serem reveladas e traduzidas.

Para encerrar minha turnê sensorial, nunca podia imaginar um povo tão bonito. Raça de traços fortes e bem marcados mas que de alguma maneira tem um equilíbrio elegantemente harmônico. Vi perfis incríveis, narizes grandes e olhos amendoados, cabelos negros reluzentes em corpos magros e esguios.
Um povo que sabe seduzir no olhar e nas atitudes e que independente dos interesses e objetivos finais nos leva realmente ao encantamento.

Esta é a Istambul a mim desvendada através dos cinco sentidos.

Essa matéria é só pra dar uma voltinha pelo Globo enquanto não embarcamos … e pra quem se interessar por Istambul, um dos destinos mais encantadores que conheci !!

texto e fotos: Luah Galvão 2009

va de trem EURAIL

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